A Turquia está enfrentando uma crise dupla, em meio à reconfiguração da ordem geopolítica internacional: de um lado colhe as dificuldades da guinada para o autoritarismo de feição sectária, imposto pelo seu aspirante a sultão Erdogan; de outro, a pressão unilateral da administração Trump com o programa desencadeado para reequilibrar a balança comercial dos Estados Unidos, a partir de restrições no trato bilateral com os parceiros.

ANÁLISE
Mesmo o alívio temporário das tensões não livra a Turquia do pesadelo de um pouso forçado, à semelhança do ocorrido com a vizinha Grécia. Para o problema concorreu o viés autocrático adotado por Erdogan, que transitou da condição de líder de um partido pluralista ao estilo ocidental para o fundamentalismo que Montesquieu, em seu tempo, associava aos déspotas orientais – afugentando talentos, empreendedores internos e investidores de fora.

ANÁLISE (II)
A crise turca – um país emergente de estágio similar ao nosso e até há pouco próspero – aproveita aos brasileiros, nesta véspera de eleições gerais. A lição: o populismo e o autoritarismo acarretam riscos aos povos. As restrições da realidade mostram que mesmo os bem governados – sob a democracia representativa – enfrentam problemas, porém nos países democráticos os solavancos são mais suaves e contidos, ensina a Turquia.

VENCE O PRAZO
Venceu a quarta o prazo para registro das candidaturas às eleições gerais de outubro, com a apresentação de coligações para a Presidência, Congresso (Senado e Câmara dos Deputados), Governos e Assembléias estaduais. Sem surpresa as chapas mais articuladas foram as que já estavam no radar político; com a única pendência do postulante do PT, onde o nome inscrito do ex-presidente Lula poderá ser mudado para o do ex-prefeito Haddad.

ANÁLISE
Adireção do PT foi até a Corte eleitoral protocolar o pedido de inscrição do ex-presidente. Porém logo em seguida entraram impugnações, a primeira formulada pela Procuradoria. Argumento: a lei da “Ficha Limpa” impede candidaturas de pessoas condenadas pela Justiça. Portanto o cenário tende a consolidar na vertente de esquerda o ex-prefeito paulistano, concorrendo com Ciro Gomes, Marina Silva e outros menos cotados.

LIÇÕES DO DEBATE
O desenrolar da campanha irá refinar preferências, mas há uma primeira leitura do debate da TV Bandeirantes: o ambiente tornado morno pela presença de candidatos nanicos (sem perspectiva) fez emergirem as figuras de Geraldo Alckmin à direita e de Ciro Gomes à esquerda. A ausência de um nome pelo PT, devido às circunstâncias desse partido, projetou o ex-governador do Ceará, ao lado de seu colega de São Paulo.

DEBATE (II)
Não por acaso, Alckmin e Ciro são ambos ex-governadores – assim como o paranaense Álvaro Dias. Sua experiência de administração conta, porém a campanha reclama outros predicados. Por isso o ex-ministro Henrique Meirelles, que concorre em nome do governo Temer, embora visto como técnico respeitado em finanças fica aí mesmo: um técnico – sem o carisma dos condutores de Estado.

DEBATE (III)
Já o ex-capitão Jair Bolsonaro – instruído para conter seu arroubo em benefício de boa impressão no debate – acabou “esfriando” demais, o que transferiu o bastão da noite para os estreantes Daciolo e Boulos; o primeiro à direita e o segundo à esquerda. Mas os dois, sem projeção maior – alçados à condição de figurantes de um jogo cuja escala não dominam.

DEBATE (IV)
Por isso Daciolo foi desdenhado pelo rival Bolsonaro como mero aprendiz de feiticeiro – da feitiçaria da arte política descrita por Maquiavel. E Boulos, quando tentou contracenar com Ciro, recebeu do brizolista uma resposta cortante: “A democracia é um regime bonito, que assegura direitos, mas tem um custo!”

ANÁLISE
No caso focado por Ciro Gomes, é o custo da sociedade em aceitar a pretensão de grupos e postulantes não representativos, como os tais. Tendo por base a teoria da mudança institucional ensinada pelo professor Douglass North (um Prêmio Nobel), essa disfunção é a pequena ponta de um iceberg de distorções do quadro institucional brasileiro – boa parte agravada pela ordem política adotada em 1988.

ANÁLISE (II)
Outros defeitos vêm desde a reforma eleitoral de 1932, quando o sistema de voto foi mudado para a representação proporcional por lista partidária aberta – culpa dos seguidores positivistas do então governante Vargas. Depois, na redemocratização, os líderes do Congresso constituinte ampliaram o erro, ao alargar a autonomia dos partidos – hoje feudos de caciques hereditários – funcionando à base de comissões provisórias, sendo os filiados, meros figurantes.

ANÁLISE (III)
O Supremo, a contribuiu duas vezes para piorar o quadro: quando anulou a cláusula de barreira aprovada pelo Congresso e depois, ao admitir a portabilidade de benefícios para criação de novos partidos. Em resultado, o Brasil possui hoje 35 partidos políticos – caso único entre as nações. Lição do professor North: instituições falhas levam a maus resultados – como estamos padecendo.

DEBATE LOCAL
No âmbito do Paraná o primeiro debate com participação dos candidatos representativos ocorreu ontem, quinta; portanto ainda sem tempo para repercutir. A saída de Osmar Dias da corrida sucessória ao Iguaçu estreitou o campo, deixando em destaque as candidaturas da governadora Cida Borghetti e do deputado Ratinho Junior, tendo como terceiro, mais distanciado, o deputado João Arruda.

ANÁLISE
Arruda é um parlamentar esforçado na bancada junto à União, porém sua chegada tardia o deixa em condições menos favoráveis do que os contendores principais, já há tempo em jornada. De toda forma os paranaenses poderão contar com líderes representativos, a exibir seus planos por quantas audiências se disponham a ouvi-los. Sinal de amadurecimento político.

UNIÃO REAL
A revoada de líderes latino-americanos para a posse do novo presidente do Paraguai, Mario Abdo, na última quarta-feira, segue-se ao prestigiamento dos dirigentes do hemisfério à investidura do presidente do México, Lopes Obrador, e da Colômbia – Ivan Duque. Para o ministro chileno do exterior, Roberto Ampuero, a aproximação indica que os latinos caminham para união real.

ANÁLISE
Os novos tempos, ditados pela realidade, tenderiam a substituir a fase retórica anterior por uma integração efetiva, assentada em duas vertentes: na economia, aproximação entre o Mercosul e a Aliança do Pacífico; no lado político, aprofundamento de laços no Grupo de Lima, de países dotados de regimes democráticos em contraponto aos remanescentes de esquerda. O Brasil vê espaço para reformular a Unasul – União das Nações Sul-americanas e livre comércio com a Ásia.

DIA DO SOLDADO
As comemorações do Dia do Soldado, em Curitiba, serão realizadas na praça Rui Barbosa, com solenidade e exposição de equipamentos, nos dias 24 e 25 próximos. Dia 24 às 10 horas, será realizada a cerimônia de abertura do evento, seguindo-se em paralelo a exposição interativa com exibição de material bélico, demonstrações e atendimento ao público por parte de militares das guarnições do Exército sediadas na capital.

ANÁLISE
As atividades estão a cargo da 5ª. Região Militar, sob o comando do general Aléssio Oliveira da Silva. Para esse chefe militar é importante organizar a exposição em uma praça central da cidade, para a aproximação entre as Forças Armadas e a população; visando demonstrar ao público a atuação do Exército nas áreas de defesa, apoio em situações de emergência social e similares – sob o lema “braço forte, mão amiga”.

ANÁLISE
A surpresa nas eleições locais é a posição do ex-governador Beto Richa, que disputará o Senado pelo PSDB. Fruto de rivalidades locais que remetem a certo ethos atribuído aos paranaenses, Beto é rejeitado por lideres, sob desculpas pouco críveis de estar incurso em investigações. Preocupante quando uma liderança expressiva, que resgatou o Paraná da crise que assolou vários estados, tem um tratamento desse tipo.

CLIMA ADVERSO
O atraso nas chuvas de meia estação afeta o país, já agora preocupando o Centro-Sul. Em palestra na reunião conjunta do dia 27 último, o professor Francisco Carvalho, da UFPR, sugeriu uma saída. Com vivência na Finlândia – país que aprendeu a conviver com enchentes de degelo -, Carvalho propõe um macro-gerenciamento hídrico no Paraná.

CLIMA (II)
Seria a construção, por todo o território, de pequenos reservatórios de água que barrariam afluentes dos rios principais – riachos e córregos alimentadores das bacias. Essas reservas teriam múltiplas aplicações: gerar energia em pequenas centrais, irrigação de lavouras e pastagens, abastecimento urbano, regularização de cursos evitando enchentes, amenização do clima e, principalmente – preparação para ciclos cada vez severos de mudança do clima.

KISSINGER ALERTA
Uma comissão presidencial nos EUA sobre inteligência artificial deve ser criada, porque “se não dermos logo início a esse esforço, em breve vamos descobrir que começamos demasiado tarde”. Essa foi a colocação de Henry Kissinger, celebrado operador de Estado, indagado a respeito do impacto dessa tecnologia sobre a sociedade atual. Trabalhadores americanos de ofícios repetitivos já sofrem seus efeitos e, países emergentes como o nosso, serão mais afetados.

ANÁLISE
Em artigo recente, Kissinger – acompanhado por outros analistas – alerta para a devastação que a inteligência artificial está causando nos empregos de baixa e média complexidade, levando ao paradoxo de um mundo cheio de coisas – produzidas com o auxilio de algoritmos – sem que as pessoas tenham capacidade para comprá-las, por terem ficado desempregadas pela ação dessa mesma tecnologia, que imprime produtos em terceira dimensão, distribui com carros sem motoristas, etc.