Lava jato peruana

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As empreiteiras brasileiras Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão e OAS foram notificadas pelo Instituto Nacional de Defesa da Concorrência peruana. São acusadas de participarem de um cartel para fraudas e vender licitações de obras públicas no país. A investigação é grande: envolve 35 corporações peruanas e estrangeiras que teria manipulado concorrências na mega conexão rodoviária entre Norte do Brasil e portos do Pacífico, lançada nos governos Lula e Alejandro Toledo, mais uma via expressa de 25 quilômetros em Lima, hidrelétrica de Inam bari e outras. Esses projetos somam mais de US$ 5,5 bilhões.
Ainda a Lava Jato peruana: as empreiteiras são acusadas de participarem de um grupo chamado de “Country Club da propina” para as licitações andarem. O pessoal da OAS já admitiu ter pagado US$ 7,3 milhões ao representante do grupo, um advogado conhecido como Rodolfo Prialé. Andrade Gutierrez e Queiróz Galvão querem deixar andar para ver como é que fica. A Lava Jato peruana quer buscar a farra da propina de volta.

Vergonha?
Jair Bolsonaro não tem vergonha – especialmente de ver algumas Medidas Provisórias caducarem e tudo que pretendiam mudar voltarem a ser exatamente como eram antes. E com um agravante: não podem ser emitidas de novo. Um bom exemplo é dos jornais ameaçados por uma MP de não mais publicarem (como matéria paga, claro) relatórios de diretoria e balanços, que Bolsonaro tentou impedir (queria que fossem publicados de graça no site do CVM ou do Tribunal de Contas da União). Esta semana, grandes jornais estão forrados – e pagos – desse material. A MP caducou porque o Congresso não mexeu uma palha, assim como em outros episódios.

Estatais
O lado mais inusitado desse episódio envolvendo a tentativa de acabar com publicação de balanços nos jornais: nas últimas semanas, entre relatórios de grandes empresas publicados em páginas (e até cadernos) dos jornais estavam os de estatais como Eletrobras e Petrobras.

Outro
No governo Bolsonaro, há um campeonato para ver quem fala mais desatinos. Agora, o general Augusto Heleno (GSI), que não tem nada a ver com negociação com o Congresso, diz que “não podemos aceitar esses caras chantagearem a gente o tempo todo”, na presença de Luiz Eduardo Ramos (Governo) e Paulo Guedes (Economia) gerando, mais um barril de pólvora entre Legislativo e Executivo. Antes, os generais já haviam pressionado Bolsonaro sobre “as empregadas da Disney” e o Chefe do Governo disse que Guedes cometera apenas “um pequeno deslize”.

Paralelo
O carnaval serve para acalmar os ânimos, mas de cara, o general Augusto Heleno se recusou a se desculpar com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Se nada acontecer, o resultado se verá em votações das reformas administrativas e tributária (ainda no papel). E Guedes teria colocado o cargo à disposição (não é um pedido de demissão) e o presidente não aceitou. O motivo é claro: Guedes montou uma máquina que funciona à revelia da Presidência. Seus secretários dominam áreas que o Chefe do Governo nem sabe do que estão falando. Guedes saindo, esse paralelo desmorona e Bolsonaro não tem como erguer outro – nem no médio prazo.

Ainda Heleno 1
Desde o início do governo Bolsonaro, o general Augusto Heleno, que quase ficou sem ministério, era tido como conselheiro de todas as horas e dono de um poder moderador em qualquer circunstância. Agora, implode essa postura, especialmente quando termina sua impensada fala com um sonoro “Foda-se”, que – pelo menos, ao que se vê – soma-se às atuais bananas que proliferaram no seio do governo, incluindo agora Eduardo, o 03. Mais: em rodas mais íntimas também Guedes adora soltar um palavrão.
Ainda Heleno 2
Augusto Heleno também tem mais episódios desprezíveis: insultou o presidente da França, mandou FHC “calar a boca” num bate-boca com ex-presidentes brasileiros, chamou Dilma de “terrorista” e defendeu que Lula fosse “condenado à prisão perpetua”, se esquecendo que a pena foi banida da Constituição de 1988. E criticou no Twitter (é outra ala que ele imita o Capitão), um jornalista sem perceber que era um blog de humor. Virou chacota.

Lavagem na cerveja
Giulia Faria, herdeira da Cervejaria Petrópolis, assumiu a gestão executiva da empresa, mesmo que, de vez em quando, peça auxílio ao diretor-geral Marcelo de Sá. Já o patriarca Walter Faria está preocupado é com sua defesa. Em dezembro ele foi solto depois de pagar uma fiança de R$ 40 milhões. Faria é investigado pela Lava Jato por lavagem de dinheiro. É acusado, entre outros malfeitos, de ter remetido ilegalmente para o exterior mais de R$ 1,4 bilhão.

Olho vivo
Conselheiros do TCE de Minas Gerais mandaram recado para o governador Romeu Zema para que providencie rápido, uma espécie de “governo paralelo” que teria a função de apoiar o Executivo na gestão pública. O TRE mineiro estaria preparando grande e grave fato político contra seu governo, com risco de reprovação de suas contas de 2019. Todo cuidado é pouco.

Divisão
Há ainda outro lado nesse choque de Heleno com o Congresso: os ataques do general da GSI ao acordo articulado também pelo general Luiz Eduardo Ramos revelam que existem “divisões” no bloco militar. Ramos é adepto do diálogo com relação ao Congresso, do lado posto a Heleno. Bolsonaro fica no meio. A nomeação de Rogério Marinho para ser um reforço para quem defende fazer política. Se não der certo, Bolsonaro pode chutar o pau da barraca. E, supostamente, também do lado errado.

Sem capital
Meio sem graça de ter sido nomeado para o lugar de Osmar Terra, no Ministério da Cidadania (ele sou através de um blog) o ex-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, sugeriu a Bolsonaro que o deputado federal (não aceitou a embaixada no Canadá) assumisse a liderança do governo na Câmara como prêmio de consolação. Negativo: para Bolsonaro, nem Terra tem essa bola toda para ocupar o posto no Congresso e Lorenzoni, menos capital ainda para se seu cabo eleitoral.
Autofágico
A participação do falso lucro da Petrobras (R$ 40,1 bilhões no ano passado, o maior da história) será rateada (participação de lucro) apenas entre funcionários (burguesia de estado) e acionistas de mercado, o que aumenta a imoral concentração de renda. E cabe lembrar que a Petrobras é a maior devedora do crédito subsidiado do BNDES no montante de R$ 62,4 bilhões, provando que o capitalismo brasileiro é autofágico: alimenta-se do próprio fracasso.
Minado
No Ministério da Agricultura, há dúvidas se o número anunciado pela ministra Teresa Cristina, uma das raras que funcionam no país, para o seguro rural de R$ 1 bilhão para este ano será de fato consumado. O pessoal de Paulo Guedes quer passar o trator e reduzir essa dinheirama.

Manobra
O presidente da Câmara, Rodrigo Garcia, já avisou que a reforma administrativa não será aprovada este ano. Diz que a Casa vai “se debruçar” sobre a reforma tributária que está apenas em algumas folhas de papel. O argumento é que a Câmara, num ano eleitoral, não terá fôlego para aprovar suas reformas. O Congresso prepara-se para enfrentar Paulo Guedes. É questão de pouco tempo.

Apoio especial
Ainda o general Augusto Heleno, da GSI, que andou se arvorando e criando situação de saia justa (ou pior que isso) para o governo no Congresso: no começo da gestão Bolsonaro, ele ameaçou subir na plataforma depois que um sargento da FAB foi preso na Espanha com 39 quilos de cocaína. O caso enfureceu Carlos Bolsonaro, o 02, que passou a atacar Heleno nas redes. Agora, Heleno se juntou aos radicais e virou herói para o vereador: “Somos todos general Heleno”. Era apoio ao “Foda-se”.

Cedo, não!
Se depender do ministro Luiz Fux, julgamento sobre a constitucionalidade da tabela do freto não ocorrerá tão cedo. O governo respira aliviado, pelo menos por enquanto.

Sem sigilo
A juíza Gabriela Hardt resolveu tirar o sigilo do processo envolvendo as empresas de Lulinha para permitir “saudável escrutínio público” sobre a atuação da administração pública da própria Justiça. Os advogados do filho de Lula reclamavam o acesso a jornalistas a documentos apreendidos pela PF numa seria de empresas investigadas por supostos pagamentos ilícitos da Oi/Telemar à Gamecorp. Agora vai.

Fila na porta
Grandes editoras estão fazendo fila na porta da Livraria Cultura em São Paulo. Esperam que Sérgio Hortz, dono, cumpra o acordo de usar os R$ 13 milhões recebidos pela venda do site Estante Visual para o pagamento de entregas atrasadas. Tem algumas desde o final de 2018.

Reforços
Depois de sofrer baixas na reta final de Raquel Dodge na PGR, a força-tarefa da Lava Jato vai ganhar reforços. Augusto Aras autorizou a transferência dos procuradores Joel Bogo e Luciano Miguel Cardoso (eles são casados) para a “República de Curitiba”. Atendeu pedido direto do próprio Deltan Dallagnol, que tenta manter a Lava Jato respirando.

Frases
“Não vi por parte dele nenhum tipo de ataque quando a gente estava votando o aumento de salário dele como militar da reserva.”
Rodrigo Maia, presidente da Câmara, contra ataques do general Augusto Heleno