Chinelos, tênis e objetos decorativos nascidos do encontro do látex com o açaí na formulação da matéria-prima feita por seringueiros e indígenas, estão entre as estrelas do salão de design Inspiramais 2020, que acaba de expor soluções  inovadoras de 180 empresas brasileiras em São Paulo, numa realização da Assintecal-Associação Brasileira de Empresas de Componentes para Couro, Calçados e Artefatos  e Sebrae-Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas.

Exposta no projeto Conexão Criativa e Comercial 2020_II com curadoria da designer Flavia Vanelli, do Núcleo de Design do Inspiramais, a borracha desses produtos é da Coopereco-Cooperativa de Produção dos Ecoextrativistas da Amazônia, sediada na cidade de Castanhal, no Pará, mas nascida da iniciativa de um paranaense de Irati, o ex-batateiro Francisco Samonek.

Diretor e pesquisador do Pólo de Proteção da Biodiversidade e Uso Sustentável dos Recursos Naturais e bolsista do CNPq de Produtividade em Desenvolvimento Tecnológico e Extensão Inovadora, Francisco Samonek conta que o produto foi batizado por Encauchados de Vegetais da Amazônia,  pois passaram pelo encauchamento, a técnica natural para obter a borracha produzida em seringais pelos indígenas e povos tradicionais amazônicos,  que abdica a vulcanização industrial.

Samonek, que sonha por um nome fantasia mais sintético que traduza esse trabalho sustentável, lembra que em 1994 a borracha artesanal ainda valia-se de um tecido, em 2002 retirou o tecido (que encarecia) e passou a misturar fibras, chegando ao açaí. Hoje, o processo de encauchamento vale-se do caroço de açaí, triturado até virar pó, sendo 30% incorporado ao látex (processo necessário para a secagem). E as mulheres coletoras da fruta passaram também a ser artesãs.

A Rede Encauchados foi estabelecida em 2015, envolvendo diferentes comunidades – ribeirinha, indígena e quilombola –, sendo perto de duas mil pessoas qualificadas profissionalmente. Atualmente, há 75 unidades coletivas produzindo artesanato e 84 unidades familiares produzindo a borracha usada nos solados e calçados, além de fazer as encantadoras vitórias-régias de borracha, hoje objetos do desejo de lojas de decoração de São Paulo depois de estrelar em salão de design em Milão.

Cinco toneladas de látex são colhidas por mês. Além de convênio assinado com o Banco do Brasil, a tecnologia social dos encauchados de vegetais da Amazônia encontra-se amparada por quatro diferentes projetos financiados. Graças a eles, a expectativa é de aumentar o consumo mensal para dez toneladas, sendo uma  tonelada para a produção de chinelos e o restante será para solados e palmilhas. A Coopereco, hoje com 400 associados, espera assim alcançar cinco mil cooperados em cinco anos.

A demanda pode alavancar os negócios dessa tecnologia social. Por enquanto, são vinte lojas (em São Paulo, Recife, Florianópolis, Rio e Belo Horizonte) que vendem as sandálias produzidas na própria cooperativa de Castanhal. A produção é de cerca de duas mil unidades/mês, sem contar os produtos feitos nas unidades coletivas e vendidos diretamente aos turistas.

E a gaúcha Save responde pelos tênis, que tiveram sua estreia no estande da Conexão Criativa e Comercial. “Já requeremos patente nos EUA e na Europa”, revela Douglas Franch, dono da marca, que usa a borracha de látex com açaí nos solados, parte do cabedal e na palmilha. Preço? Sinta a consideração do empreendedor: “Quando se trata de sustentabilidade social e proteção da floresta, não custa cem reais. Custa cem anos”.  Afinal, segundo os seringueiros, um quilo de borracha comercializado significa um hectare de floresta protegido.