Kiyoshi Kurosawa faz seu melhor filme desde ‘Sonata de Tóquio’, de 2008

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SÉRGIO ALPENDRE, FOLHAPRESS

O título brasileiro é bem pomposo: “O Fim da Viagem, O Começo de Tudo”. O original japonês, diz o Google tradutor (bem mais confiável do que anos atrás), é algo como “O Começo de Cada Vez”.
Fosse um diretor qualquer, seria tamanha a responsabilidade depois de um título desses. Porque o espectador pode já comprar o ingresso à espera de poesia em imagens, por vezes sem se preocupar que tipo de poesia qualifica que tipo de imagem (se for algo como Xavier Dolan, melhor fugir).
Acontece que o diretor do filme em questão é Kiyoshi Kurosawa (dos clássicos “Cure”, de 1997, e “Pulse”, de 2000). É, sem exagero, um dos três ou quatro melhores do cinema contemporâneo, e certamente o melhor do Japão desde meados dos anos 1990. Por isso, o que se passa na tela grande é puro deleite cinematográfico.
Cartaz do filme ‘O Fim da Viagem, O Começo de Tudo’, de Kiyoshi Kurosawa Reprodução Cartaz do filme ‘O Fim da Viagem, O Começo de Tudo’, de Kiyoshi Kurosawa      Acompanhamos uma jovem apresentadora japonesa chamada Yoko (Atsuko Maeda), que chega à etapa final de seu programa de viagens. Neste último episódio, ela vai ao Uzbequistão e toma conhecimento de um outro mundo.
Seu sonho é ser cantora, e os momentos musicais, todos embalados por um onirismo contagiante, são o escape que ela encontra nas andanças pelo belo e desconhecido país que um dia pertenceu à União Soviética.
Mais do que mostrar um programa de viagens, desses que tem aos montes na televisão, em forma de longa, Kurosawa (nenhum parentesco com o mestre Akira) expõe os desejos e as fragilidades da apresentadora, seu cansaço, as discussões da equipe que ela testemunha, incluindo um breve entrevero com a polícia local.
Yoko descobre a gentileza do povo usbeque, mas descobre também um bazar onde se vende de tudo, um parque de diversões com brinquedos raros, um teatro com intensa ligação japonesa (que a equipe ignora por uma mistura de cansaço e arrogância) e a vida pulsante da capital Tashkent.
Da mesma forma, Kiyoshi Kurosawa, em seu melhor filme desde “Sonata de Tóquio” (2008), descobre uma personagem que, apesar de apresentar um programa de TV e de ser vista por muitas pessoas em seu país natal, é gente como a gente, com medos, enjoos, frustrações e sonhos suspensos.
E o faz com uma poesia que nasce e termina nas pequenas coisas e nos menores gestos, exatamente como pedia Truffaut (nunca a poesia calculada, “a priori”, dizia o crítico e cineasta francês). É a vida e nada mais.
Em “O Fim da Viagem…”, a poesia nasce de um olhar apurado para as manifestações da vida e do mundo, de uma observação cuidadosa e delicada de costumes diferentes e de pessoas que falam uma outra língua (raramente há o atalho para o inglês, e quando há, é quase sempre infrutífero). Parece pouco, mas é muito mais do que temos ordinariamente no cinema atual.
O filme estreia no Brasil menos de um mês após sua exibição no Festival de Locarno, e três meses após sua estreia no Japão. Nunca um filme de Kiyoshi Kurosawa chegou tão depressa ao circuito comercial.

O FIM DA VIAGEM, O COMEÇO DE TUDO
PRODUÇÃO Japão, Uzbequistão, Catar, 2019
DIREÇÃO Kiyoshi Kurosawa
ELENCO Tokio Emoto, Atsuko Maeda, Ryo Kase
QUANDO Estreia nesta quinta (12)
AVALIAÇÃO Ótimo

Publicado por SÉRGIO ALPENDRE, FOLHAPRESS
Foto: reprodução do site folha UOL