Nascida da convivência com famílias de Kaingangs e Guaranis, a peça Nós Outros, da Fala Companhia de Teatro, já passou por trinta municípios, nessa semana foi encenada no Novelas Curitibanas e parte agora para 24 apresentações nas escolas municipais, estaduais e em espaços culturais de Curitiba.
Os atores Diego Marchioro, Eduardo Ramos, Patrick Belém e Richard Rebelo, acompanhados do diretor e dramaturgo Don Correa e do músico e compositor Paul Wegmann, foram recebidos na Aldeia Tupã Nhe’e Kretã, localizada na divisa dos municípios de São José dos Pinhais e Morretes, para uma experiência de imersão. A ideia era apenas estar junto, conviver, presenciar o dia-a-dia, aprender sobre os costumes da comunidade e foram esses momentos compartilhados que inspiraram o trabalho.
O processo de imersão contou com a colaboração do cacique Kretã Kaingang e Andreia Fernandes, ambos ativistas do movimento indígena nacional, de Florêncio Rékág Fernandes, mestre-diretor da Escola Estadual Indígena Emília Jera Poty , de Morretes, além dos antropólogos Paulo Homem de Góes e Cauê Krüger.
Sem máscaras ou personagens, os atores contam suas próprias histórias, de onde vieram, usam, inclusive, seus nomes verdadeiros e convidam o espectador a partilhar as suas histórias também. Músicas, danças e brincadeiras com elementos indígenas promovem a interação e o vínculo com a plateia.
“A proposta desse espetáculo é buscar uma real interação com quem nos apresenta diferentes visões de mundo. E a etnia indígena exemplifica isso de forma bem radical. Precisamos, antes de tudo, sentar e conviver. Comer juntos, ouvir, calar-se. A nossa postura nas imersões com estes povos indígenas foi de apenas estar com eles e fazer o que eles nos propunham e é essa experiência que trazemos para o palco e queremos dividir”, conta Don Correa.
O antropólogo Cauê Krüger observa: “A peça já vale pela urgência em tematizar a alteridade, transformando uma categoria complexa e abstrata em exercícios cênicos sensíveis, empáticos e reflexivos. A isso se acresce a coragem dos artistas em se permitirem afetar, de múltiplas formas, pela drástica condição indígena no Brasil. O resultado, alicerçado na dramaturgia contemporânea, é um cativante exercício cênico real-ficcional que promove, por meio de identificações e estranhamentos, a oportunidade, cada vez mais rara no mundo atual, de se colocar no lugar do outro”.
Projeto realizado com o apoio do Programa de Apoio e Incentivo à Cultura – Fundação Cultural de Curitiba e Prefeitura Municipal de Curitiba. Incentivo: Ebanx e Universidade Positivo.