por Claudia Queiroz

 

 

 

 

 

 

 

O que dizer quando uma mãe leva a filha de 9 anos pra fazer escova progressiva no cabelo? Pra quem não sabe, este é um tipo de alisamento, assim como botox ou outras misturas que utilizam formol na composição para domar fios rebeldes e arrepiados. “Filhinha, é só uma hidratação com cheirinho de mel”, diz a mãe para convencê-la. MENTIRA!!! Aliás uma mentira disfarçada de amor!

Minha filha tem 2,7 anos e os cabelos inteiramente encaracolados. Linda, angelical, natural, única… Repete algumas das minhas manias, falas, hábitos, gostos e logo vai crescer achando que é a continuidade da minha vida, pelo menos por um período. E, de certo modo será, porém, mantendo a identidade dela.

Voltando para a mãe que mente, que valores estão sendo passados pra essa menininha? Que por acaso ela será mais admirada pelas pessoas se tiver cabelo liso? Então a previsão do futuro nos dá pistas de que esta mocinha em breve será loira, de cabelo liso, nariz empinado plasticamente, pele esticada, boca preenchida artificialmente, peitos moldados com silicone, sobrancelha discretamente tatuada, sem bigode chinês, com maçãs do rosto bem pronunciadas… Será que descobrimos os segredos do congelamento de quem bebe direto na fonte da juventude?

Se continuar assim, com 11 anos é provável que ela ponha o dedo na garganta depois do jantar pra caber naquela calça jeans e aos 13, quando mudar o corpinho e passar pelas transformações transitórias, esperadas nesta fase, poderá estar viciada em boletas pra emagrecer.

Tudo isso realiza o sonho de quem? Da mãe que precisou entrar em padrões porque passou a vida inteira duelando com a própria imagem em busca de autoaceitação? Esta mesma ignorância quer projetar sua versão miniatura na filha que não sabe ainda escolher.

Meu pensamento divaga pela ditadura da beleza. Dizem que as revistas, os programas de TV, a sociedade impõe moldes. Mas hoje posso afirmar que a raiz de todo esse mal começa dentro de casa. Com a cumplicidade plástica e diretamente proporcional às inseguranças pessoais da família.

Eu acho triste não ver expressão alguma nos incontáveis sorrisos, dramas, conquistas e histórias de 30, 40, 50, 60, 70, 80 anos de idade. Por quanto tempo pretendem se enganar? Não sou contra a vaidade, deixo aqui bem claro, longe disso! Adoro tratamentos estéticos, cremes e truques de ‘boniteza’… Mas todos eles têm limites, né?! Quantas versões Hebe e Ana Maria Braga você conhece?

Nem os homens sobreviveram… Acompanhando a tendência dos iguais, os modelos ‘Ken‘, pra quem não sabe, namorado oficial da ‘Barbie’, brotam em toda esquina da cidade… Barbas aparadas, robustas, compridas, cerradas, como se o volume de cabelo no rosto fosse uma nova maneira de dosar testosterona…

Pra quê seguir uma moda imposta, que tenta estereotipar uma espécie de status? Por que congelar o rótulo e desprezar o conteúdo? Parecer é mais importante que ser? Mentiras sinceras interessam a quem? Onde é que disseram que ser igual é bom? Bonecos são brinquedos de alguém… Diversão alheia e temporária. Só! E, ironias à parte, essa barbielândia da imaturidade só diz uma coisa: que o perfeccionismo rouba a vida de quem não se atreveu a viver. Demita o monstro do espelho e ame-se sem sentir vergonha de namorar eternamente quem você se tornou.

Quem sou eu pra dizer isso? Alguém que às vezes até sai na rua usando calça de pijama, sem pentear os cabelos, que aprendeu a abrir mão de tantas maquiagens e acessórios… Depois de muitos anos escrava da opinião alheia, especialmente pela profissão de jornalista, consegui me libertar das verdades impostas e hoje sei que quando posso ou quero me produzir viro ‘a mulher mais linda do mundo’, mesmo que eu não seja, porque aprendi a desempenhar o melhor de mim em cada papel que a vida me convida. Touchè! Agora é a sua vez!

*Claudia Queiroz é jornalista.