*por Claudia Queiroz

Criança precisa da cadeirinha com assento elevado e cinto de segurança afivelado para passear de carro, certo? Todos sabemos a resposta, mas esta semana, levando minha filha pra escola, bem à nossa frente, ainda em movimento, uma criança de uns 5 anos se divertia em pé, com metade do corpo para fora do veículo que tem teto solar. No volante, um “pai mais legal” que os outros… O garoto sentia-se admirado pelos colegas, que olhavam a cena no desembarque, e poderoso em poder algo que os outros não podem. Provavelmente o “pai sem noção” acha que está sendo mais amado pelo filho, permitindo algo ‘errado’.

Triste glória passageira desse menino que está aprendendo a se destacar por quebrar regras. Brincadeiras como estas criam lastros perigosos na formação de caráter. A falta do NÃO gera sérios efeitos colaterais. Geralmente a criança sem limites, aparentemente ‘mimada’, carrega ‘sintomas’ importantes por toda a vida. Tornam-se pretensiosas, impulsivas, oportunistas, manipuladoras, mais violentas que as demais, sentem-se superiores e sofrem de baixa autoestima. Afetarão tudo à volta delas, espalhando sofrimento e dor.

Muitos dos males da atualidade poderiam ser evitados com educação mais atenta e presente dos pais. Não devemos ter medo de frustrar os filhos. O não de hoje é o maravilhoso presente de amanhã. Nossa sociedade nunca esteve tão doente! Jovens se suicidando, usando drogas, violência doméstica, divórcio a rodo, acidentes de trânsitos horríveis e assim por diante. Sofrimento desnecessário se houvesse mais intimidade com o NÃO.

E tudo começa na infância, época de construção do pensamento e da mentalidade. Criança testa… Pede, chora, grita, insiste, repete e às vezes nos tira do sério. Todas são assim. Precisam de limites e direção, algo normal e útil para o desenvolvimento delas. A gente cede uma vez, não consegue frear a próxima até se perder como referência, …, e aí é só o começo da desordem global. Na ânsia de aparentar o controle dos pequenos, que muitas vezes agem como bombas-relógios, fingimos que está tudo bem e duelamos descontroladamente a regência dos limites.

Sentimos culpa pela falta de tempo, transferimos aos filhos os traumas vividos no passado, superprotegemos das dores que terão no futuro… Que confusão! A criança, desde quando nasce, está tendo a história dela escrita por ela, porém com nossa ajuda através das experiências vividas nos acertos e erros. Se tivermos segurança e firmeza nos ensinamentos e exemplos, saberão distinguir o que fazer em cada fase.

Quando minha filha de 3 anos sai do castigo (ela tinha pouco mais de 1 ano e meio quando começou a ser punida desta maneira), fica mais doce, segura e feliz. Parece um paradoxo, mas ao perceber determinadas normas e valores compreende que nem tudo na vida é gratuito. Alguns minutinhos para pausar a teimosia do engano. E ela vai criando consciência e consequência das próprias ações. Já sabe reconhecer o carinho e a atenção quando cumpre os ‘combinados’. São trocas necessárias para a relação.

Como mãe, estou regando as raízes dela com segurança e podas sazonais, para que saiba impor o NÃO todas as vezes que for necessário. Conhecendo limites ela aprende a ser autônoma e isso garante autoestima saudável e elevada. Dentro de casa, sendo muitas vezes contrariada, treina o controle interno e descobre que há um sistema de regras no mundão lá fora.

Pra mim, educar é estabelecer esta relação de confiança e afeto de forma clara, para que nossos filhos entendam que pais legais preparam seus filhos para a vida e não para ‘momentos de destaque’. O que espero com isso? Que ela mesma saiba impor um belo NÃO todas as vezes quanto for necessário. E sabemos que existirão muitas oportunidades e preciosas oportunidades pelo caminho. Para as drogas e tantos outros ‘abusos’ quando estiver sozinha. Se aprender limites agora, nossa proteção familiar restará poderosamente cravada em cada célula dela.

Se é fácil? Claro que não! Mas ter um filho é praticar o acordo com Deus em cuidar, proteger e ensinar alguém através da nossa lapidação contínua e diária. Chegamos antes nesta vida. É nossa obrigação. Amor verdadeiro é assim. Caso contrário, é melhor não ter ‘herdeiros’ e continuar a vida do mesmo tamanho. Pais e filhos: “Não saiam da cadeirinha”. E ponto final.

Claudia Queiroz é jornalista.