CLÁUDIA COLLUCCI E ÉRICA FRAGA
FOLHAPRESS
Em seis anos, triplicaram no país as internações psiquiátricas cobertas por planos de saúde em que o paciente é acolhido durante o dia e retorna para casa à noite.
Em 2018, clínicas e hospitais psiquiátricos contabilizaram quase 100 mil atendimentos, ante 32 mil feitos nessa modalidade, chamada hospital-dia saúde mental, em 2012.
O aumento de 211% é parte de quadro geral de explosão na busca por tratamento para doenças como depressão, ansiedade, estresse, dependência química e esquizofrenia.
“O hospital-dia foi criado para agilizar a alta hospitalar e, ao mesmo tempo, acelerar a reintegração social do paciente”, diz Wagner Gattaz, professor de psiquiatria da USP.
Nulvio Lermen, diretor técnico de atenção ambulatorial da Amil, ressalta que a modalidade é uma tendência, pois permite ao paciente ser tratado sem se afastar do núcleo familiar: “Aumentou o consenso sobre a importância da proximidade da família em quadros como o de idosos com sofrimento mental e pacientes com risco de suicídio”.
Segundo ele, esses são exemplos de distúrbios que se tornaram mais frequentes na esteira do rápido envelhecimento populacional e do ritmo frenético nas grandes cidades, em meio a transformações tecnológicas e aumento da carga de trabalho.
Essas tendências ajudam a explicar por que a disparada na busca por atendimento em hospitais-dia não veio acompanhada de redução nas internações psiquiátricas regulares, que praticamente dobraram nos últimos seis anos–de 99,5 mil para 196,3 mil.
A demanda por consultas psiquiátricas–que, como a Folha noticiou em novembro de 2018, havia aumentado 54% de 2012 a 2017–continuou crescendo. No ano passado, planos de saúde cobriram quase 5 milhões de atendimentos, 10% mais que em 2017.
Já as 17,6 milhões de sessões com psicólogos realizadas em 2018 representaram uma expansão de 116% em relação a 2012 e de 13,7% na comparação com 2017, segundo dados da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar).
O salto na cobertura de tratamentos de saúde mental contrasta com a perda de 2,2 milhões de segurados de planos de saúde entre o primeiro semestre de 2013 e o mesmo período deste ano, em meio à crise econômica.
Como a busca por atendimento psicológico e psiquiátrico cresceu em ritmo mais rápido do que a demanda média pelo tratamento de outras doenças, seu peso no sistema de saúde suplementar como um todo cresceu. A saúde mental, por exemplo, respondia por 6,3% das internações na modalidade hospital-dia e passou a representar 12,1%.
Preocupados com a situação, governo, empresas e seguradoras têm lançado campanhas de informação, serviços e programas voltados à prevenção desses distúrbios.
Após ver o número de consultas psiquiátricas e de internações-dia aumentarem, respectivamente, 181% e 138%, entre 2017 e 2019, a Sul América acabou de criar o programa Única Mente. Setembro foi escolhido como data da estreia por ser o mês da campanha de prevenção ao suicídio.
A ideia do programa–por ora, restrito à capital paulista– é facilitar o acesso e eliminar barreiras ainda frequentes no setor, como o número limitado de consultas psiquiátricas ou sessões de terapia.
“O beneficiário tem livre acesso para o que precisar. Cada um terá seu próprio desenho, pois cada mente é única”, diz Tereza Villas Boas Veloso, diretora médica de saúde de adultos da operadora.
A empresa também oferece um canal com orientação 24 horas e monitoramento por SMS, chat e WhatsApp.
Segundo Tereza, parte da explosão nos diagnósticos de doença mental se deve ao fato de ela ainda carregar estigma grande, levando as pessoas a postergar a busca por ajuda especializada.
Foi esse o caso do ator Danilo Simplício Braga, 25. Embora sofresse de depressão e ansiedade desde a adolescência–quadro agravado por um acidente aos 17 anos que o deixou imobilizado por quatro meses–, ele relutava em ir ao psiquiatra. “Imaginava como contaria aos meus pais, se eles iriam pensar que eu estava ficando doido. Hoje eu vejo que era preconceito, desinformação. É um especialista como outro qualquer “, diz ele.
Em 2015, Braga começou a fazer terapia com psicóloga particular, mas ainda assim tinha crises de pânico e ansiedade. Hoje, com medicamentos antidepressivos e ansiolíticos, associados ao acompanhamento psicológico, não voltou a ter crises e diz se sentir muito melhor. Ele é um dos beneficiários de um programa de saúde mental lançado por uma operadora de São Paulo.
Na Amil, a equipe de profissionais é composta por psiquiatra, psicólogo e assistente social, além do médico de família, da área da atenção primária, que é o responsável pela triagem do paciente.
Segundo Lermen, da Amil, a prevenção pode levar a uma redução das crises mais agudas, reduzindo a necessidade tanto de internações em hospital-dia quanto em tempo integral. “Essas equipes veem os pacientes com quadros mais graves quase diariamente e estão em contato direto com suas famílias”, diz.
Especialistas afirmam que, quanto mais cedo os problemas psicológicos são identificados, menor é o risco de que se agravem. A assistente administrativa Karla Prudêncio Sandes, 34, trilhou um caminho difícil para descobrir a importância dos sinais iniciais de uma crise.
Anos sem tratamento adequado pioraram os sintomas de seus problemas a ponto de Karla tentar suicídio e passar por duas internações. Ela hoje convive com os diagnósticos de depressão, transtorno de personalidade e ansiedade. “A gente não quer morrer, mas acabar com o problema, fugir dele”, diz.
Por meio do plano de saúde oferecido pela empresa de segurança onde trabalha, ela tem sido atendida em programa voltado à saúde mental.
“Estou gostando. O fato de que meus filhos [uma menina de 14 anos e um menino de 7] também já passaram pela psicóloga me tranquiliza muito.”
Para Karla, que está cursando psicologia, a falta de entendimento sobre os quadros psicológicos e de empatia piora muito a situação do paciente. Ela diz ter convicção de que foi demitida uma vez por ter precisado ficar afastada do trabalho um tempo, com licença pelo INSS.
As chamadas doenças mentais e comportamentais representaram 5,3% do total de afastamentos do trabalho– benefício chamado auxílio-doença acidentário– concedidos pelo INSS no primeiro semestre deste ano. Em 2008, esse percentual era de 3,6%.
Para Gattaz, da USP, a maior competitividade no ambiente de trabalho e o uso muito intenso de redes sociais eliminou o ócio da vida de muitas pessoas, contribuindo para a maior ocorrência de transtornos mentais: “O ócio não é apenas criativo. Ele nos dá a possibilidade de revigorar nossas energias”.
A operadora Care Plus também lançou há pouco um programa nesses moldes. Um boom na demanda por tratamentos psiquiátricos havia elevado em 60% os gastos da empresa com saúde mental.
Segundo Ricardo Salem Ribeiro, diretor médico da operadora, eles buscam a sensibilização e o treinamento de gestores de empresas para a necessidade em apoiar funcionários acometidos por algum transtorno psiquiátrico.
“Percebemos que há muito tabu e preconceito envolvendo o tema. Os funcionários temem levar o assunto para o seu gestor e sofrer retaliação. Garantir sigilo do tratamento foi importante”, diz ele.
O programa da Care Plus tem formato parecido com o das demais operadoras, incluindo consultas ilimitadas e disponibilização de ferramentas de apoio online.
A operadora oferece ainda a possibilidade de terapia familiar, modalidade não prevista no rol de serviços obrigatórios dos planos.