HORTAS COMUNITÁRIAS EM MARGENS DE FERROVIA

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Galhofescamente costuma se dizer que “é de onde menos se espera que não sai nada mesmo”. De qualquer forma não custa pagar para ver. Volta e meia manchetes bombásticas em meios de comunicação regular, levam a crer que o ser humano é desatento por natureza, pois como é que ninguém pensou nisso antes, nessa idéia “espetacular” ora publicada.
Pois é, a grande idéia do momento surgiu na “inteligentsia” dos parceiros: Prefeitura de Curitiba e Rumo Logística – operadora de malha ferroviária que atravessa a capital. A coisa é simples e resume-se no seguinte: assume-se uma área de um mil metros quadrados à margem da ferrovia que, embora seja faixa de domínio, é considerada segura para o cultivo de alimentos por ser isolada da via férrea.
Como bem lembrado, o campeão dos equívocos é imaginar que se sabe o que é bom para os outros, mas tudo bem. O projeto com o sugestivo nome de “Canteiros da Cidadania” será lançado nesta quarta-feira (13), com a primeira horta sendo instalada no Cajuru, nas proximidades da sede da parceira Rumo Logística. É claro que a torcida é para que a coisa funcione bem nesse projeto piloto, produza os resultados esperados e se multiplique nos milhares de quilômetros de ferrovia operados pela empresa.
Agora, sem querer botar gosto ruim, mas só para entender, não é sem propósito considerar sabedorias básicas de quem cultiva hortaliças. Por exemplo, vai se criar uma associação de produtores para cada horta? Sim, porque tem que se limpar o terreno, fazer os canteiros de preparação de mudas e de plantio definitivo, cuidar da drenagem e da irrigação, tem os tratos culturais e por aí afora. Isso sem falar em aplicação de defensivos, mas seguramente será horta orgânica para ficar ao gosto dos “bichos grilo”, que se acham ecologicamente “corretos”.
Um pouquinho de conceitos, só para atiçar a memória. Bem Comunitário – situação em que quando tudo é nosso e nada é meu, a equação dificilmente fecha. Trabalho Coletivo – situação quando são dois os encarregados de dar água para o cavalo, é grande o risco de o animal morrer de sede.
Outra alternativa seria identificar pessoas que tenham aptidão e disposição para assumir o negócio, gerando emprego e renda nos vizinhos e produzindo na própria vizinhança, aos olhos de todos, as hortaliças de que precisam a melhores preços. Não é à toa que desenvolvido em Harvard ainda nos anos cinqüenta, o termo “agronegócio” hoje tão referenciado, está aí para não esquecer que agricultura é negócio e, em negócios, só se estabelece e nele permanece quem é competente para tal. “E aí, combinaram com os russos?”

Joaquim Severino – Diretor Presidente da empresa Agrária Engenharia e Consultoria S/A e Professor de Política Agrícola da Universidade Federal do Paraná – 1973/2010, tem escrito mais de mil artigos nesta coluna desde 1992.