Todo mundo sabe, quem não sabe ainda vai saber quando ficar velho, que a sabedoria dos antigos expressa em ditados, são tiro e queda, não falha. Pois bem, nesses dias em que pululam os artigos dos sábios do dia seguinte, a ópera parece resumir-se no seguinte: os “vorteios” são muitos e gol nenhum. Talvez porque a Dilma sargenta ainda precise de algum tempo para ajustar-se ao figurino da Dilma presidenta. Ela agora está vendo o que é bom pra tosse. Não é difícil imaginar como a senhora está se sentindo, está mais ou menos na situação de cego em tiroteio.

De repente, mais que de repente, a presidenta toda poderosa que trata ministro na ponta da bota, aliás hajam botas porque a quantidade de ministros é maior que tosse comprida, se dá conta de que não adianta bradar, pois quem está bradando é o povo nas ruas, quem nela votou e quem nela não votou, sejam sérios, pândegos ou vândalos. Turba é turba e aí, sai de baixo. Pois bem, atarantada pela dimensão das manifestações e premida pelas circunstâncias, a presidenta foi à fala. E aí ditou receita, cuja validade foi mais curta que vôo de galinha. Se for para ser tudo diferente, então porque fazer o que está fazendo. Se o que está fazendo é o certo, então para que mudar. Mordeu a língua.

E pior, esqueceu de combinar com os russos, como teria dito Garrincha ao técnico Feola na copa de 58 na Suécia. Nunca mais será mesma, a crista baixou. Tão louvada como estrategista e executiva linha dura, a presidenta talvez tenha esquecido de que ter muitas prioridades equivale a não ter nenhuma. Ela pode desfiar um rosário de realizações, grande maioria requentadas da época de seu padrinho e antecessor, mas projeto daqueles que “péga na veia”, nenhum. Não que não quisesse ter, é que não foi capaz de descobrir. Ficou no reme-reme. Bem que ela poderia gostar de dizer que recebeu uma herança maldita, mas aí teria chutado o balde.

Elementarmente se diz que um governo não é para comprar nem vender. É sim, para induzir, fomentar e disciplinar. Mas os governos não se agüentam, querem mesmo é executar, pois é isso que dá prestigio e margens para muitas outras coisas. Outra liçaozinha primária e a da repartição dos pães. Diz o velho ditado que “quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é burro ou não entende de arte”. Pois é, Dona Dilma agora está se vendo no bico do corvo. Deu muitos “vorteio”, mas está aí sem marcar nenhum gol até agora.

É de se esperar que a presidenta, obstinada como é, consiga uma trégua, primeiro nas ruas, depois no congresso. Os congressistas também estão assustados, mas protegidos que são por um tipo de pacto auto-preservante, passarão ao largo da crise. Resta à presidenta Dilma parar de ciscar, deixar de crer que pode tudo e exercitar a humildade, quem sabe então, sem muito “vorteio”, faça um gol, um golzinho. Nem que seja de canela e nos minutos finais.

 * Joaquim Severino – Professor de Política Agrícola da Universidade Federal do Paraná (1973-2010) e Diretor Presidente da empresa Agrária Engenharia e Consultoria S/A, escreve nesta coluna desde 1992.