por Claudia Queiroz

 

Um quadro que desenhei com milhares de pontinhos na minha juventude está agora me ensinando muito sobre devastação e reconstrução. Fiz para um concurso interno na escola em que eu estudava, uma das mais conhecidas da cidade. O tema era Meio Ambiente. Então imaginei árvores fartas e toda a rica vegetação em um lindo bosque com o rio sinuoso em curso, dividindo o cenário entre a vida e a morte da natureza. Troncos sem folhas e galhos secos representavam a mãe natureza implorando por sobrevivência, como se isso pudesse ser registrado na velocidade instantânea de um retrato.

Dramático e intenso, com forte apelo juvenil, mas absurdamente lindo! Eu tinha 14 anos. Projetava minha alma de artista naquelas horas de dedicação e todo o delicado cuidado com a tinta nanquim.

O capricho foi bem além da tela. Laços de fita envolvendo o trabalho, entregue e enrolado como algo nobre. Espalhei purpurina nos sonhos. Era o panorama perfeito de vitória também pelo alto impacto da causa ambiental, tão importante desde aquela época. Minha turma inteira torcia por mim. Aliás, a arte que eu costumava fazer geralmente era desejada como prêmio entre os colegas.

Mas essa obra não foi classificada. Não só isso, foi desclassificada porque questionaram minha autoria… O veredicto saiu naturalmente da boca de uma funcionária da secretaria escolar. Fiquei perplexa, inconsolável, nublei meu potencial criativo e parei de participar destas ações colegiais. Toda a revolta gritava afônica, sem mais perspectivas… Naquela época não se apelava a recursos jurídicos ou coisa parecida… Venceu uma folhinha feliz! Beeeem patética na minha visão de dor de cotovelo.

Guardei meu desenho, o vencedor oculto, numa ‘quarentena’ de 30 anos! E na pasta descansou anonimamente favorito, na companhia de outros não tão importantes.
Num momento daqueles de organização, em casa, encontrei o ‘trabalho adormecido’ e resolvi mostrar ao meu marido. Contei a história sem fungar, chorar, fazer biquinho… Apenas lamentando o ocorrido. Mais que atento, imediatamente ele disse: Maravilhoso e foi você quem fez! Vamos colocar numa moldura!

Sabe o que aconteceu? Aquele brilho do passado ressurgiu em meus olhos.
Fui finalmente reconhecida!!! E toda vez que passo pela entrada de casa, olho para o quadro chique, que agora mora próximo à lareira e penso nos novos ventos que sopram das cinzas. Quanta vida surge na simples vontade de existir… Interpretação é apenas um ponto de vista. Minha alma de artista acordou e faz novos planos de juntar pontinhos, histórias, caminhos e superações. Eu nunca desisti de mim! Já naquela época eu devia saber disso. Só precisava que alguém me lembrasse!

Claudia Queiroz é jornalista.