Filme: Cafarnaum, fúria santa

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Quando até os musicais Nasce Uma Estrela e Rapsodia Bohemian são melodramáticos, o ápice da dor em celuloide chama-se Cafarnaum, já em cartaz e na relação dos indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro, cujo resultado será anunciado dia 24 deste mês.

A excelência dessa ficção/drama da vida real está na direção, no roteiro, no elenco, na música, na fotografia – principalmente na atualidade do tema, uma espécie de Os Miseráveis versão Líbano, Síria, Etiópia no século XXI.

Soco no estômago, pontada no coração, tapa na cara, enfim, o público sai atordoado da sala de cinema. Mas sai gratificado, muito gratificado por sua humanidade. Obrigada, diretora Nadine Labaki. Parabéns Festival de Cannes, por conferir ao filme o Prêmio do Júri.

Cafarnaum (nome de uma cidade bíblica, mas traduzida no início do filme por  Caos) é uma caótica cidade de miseráveis, onde vive e padece o menino Zain (magistralmente interpretado por Zain Al Rafeea). O filme começa pela condenação do menino (cuja idade é estimada em doze anos) por esfaquear um homem e, no mesmo tribunal, o réu processa seus pais por colocá-lo no mundo.

Pode ser  que a libanesa Nadine Labaki tenha se inspirado no movimento antinatalista,  defensor da ideia que as pessoas devem abster-se de ter filhos por motivos morais. (Na Índia, Raphael Samuel, de 27 anos, processa os pais, sob acusação de pôr filhos no mundo por pressão social). Mas Nadine vai além, palmilhando as ruas de sua Cafarnaum, onde vivem os miseráveis –  os libaneses nativos, quanto refugiados legais ou ilegais, a tônica desse século de atrocidades.

Zain, vítima desse caos humano, revoltado por sua irmã ser entregue em casamento apenas com onze anos de idade, foge do cortiço, conhece o “Homem-Barata, primo do Homem-Aranha”, mas logo estará na condição de um desamparado babá de um desamparado bebê etíope. É na relação dessas crianças, seus olhares e pequenos gestos, que a diretora dá um banho de sensibilidade e empatia. Com uma câmera na mão, ela extrai momentos incríveis de “interpretação” do elenco infantil.

(Meu troféu de melhor ator vai para Zain, na vida real um garoto sírio refugiado em Beirute, e o Oscar de atriz-coadjuvante entrego de todo coração para a bebê que interprete o bebê etíope).