Imagine a primeira cena de um filme que vale por toda uma narrativa. É o que ocorre em ‘Thunder Road’, protagonizado, escrito e estrelado por Jim Cummings, a partir de um curta dele mesmo sobre um policial do Texas que mergulha em uma espiral de desespero existencial que o faz progressivamente perder quase tudo que ama.

A primeira cena se dá no funeral da mãe protagonista. Como é tradição no EUA, ele é convidado a fazer o discurso de despedida na igreja. E, nesse momento, o talento de Cummings impressiona. Ao buscar criar uma analogia entre a ida da mãe e a música ‘Thunder Road’, de Bruce Springsteen, ele se transforma.

Sua dança desesperada, sua luta com a dislexia e a lembrança de como a mãe o ajudou a se diplomar se mesclam e emocionam. A partir daí, o descontrole emocional, pontuado com cenas de violência em ações policias e com colegas de profissão, só aumentam, culminando com o momento em que causa péssima impressão a um juiz e perde a guarda compartilhada da filha de um casamento também estilhaçado.

O ritmo do filme em momento algum é quebrado nesse mergulho em uma pessoa que busca remediar seus destemperos com doses de humor de maneira a desarmar aqueles que são agredidos. Mas a estratégia se esgota pela repetição e pela progressiva falta de controle sobre as próprias ações, numa queda nada serena em que a única redenção está na filha, significativamente chamada de Crystal, brilhante e isolada esperança de um renascer do protagonista ou talvez apenas um efêmero salva-vidas em um naufrágio anunciado.

Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.