Exceções à regra…

781

*por Claudia Queiroz

Como você seria se não tivesse ninguém olhando? Se em determinados momentos do dia você não se preocupasse com o julgamento alheio, punições de crenças, convenções sociais, penalidades, consequências, perdas e tantos outros medos que assombram sua reputação? Séries divertidas, peças de teatro, cinema e novela exploram o tema transbordando humor, com recorde de público. Por quê? Provavelmente porque todos nós temos um lado B pouco conhecido e nos identificamos com algumas exceções…

A aposta recente do NETFLIX coloca anjos e seres humanos num confronto moral divertido, onde os tais personagens alados quebram regras quando o grande chefe não está vendo. No entanto, esses anjos foram criados porque nosso mundo precisa deles, ou melhor, dos poderes a eles conferidos. Como coincidências não existem e parecem ser obras desta turma que adora dar uma forcinha nos encontros românticos, na cura dos corações partidos e acidentes evitados…, ambos os lados parecem eternamente seduzidos pelo universo desconhecido um do outro. Até que aparece um tal que questiona o protocolo e a burocracia do céu, começando com a pergunta “por que precisamos usar gravata se não podemos aparecer para os humanos?”. E pelo jeito esta é só a primeira provocação sobre uma maneira de pensar que virou ‘convencional’ por lá.

Por aqui, transitando entre os dois mundos, o personagem travesso ajusta seu foco em ajudar as pessoas, deixando pra segundo plano sua proposta existencial enquanto ‘ser superior’, quebrando padrões e se igualando às condições humanas. De repente encontra alguém em carne e osso que quer mudar tudo, sem seguir regras. Confusão feita e sucesso de audiência à vista.

Pelo menos fora das telinhas, consequências e armadilhas não são obra do acaso. Mesmo quando parece que ninguém está olhando, a tecnologia chegou pra criar uma nova identidade para todos nós, intitulada como digital, já que temos pessoa física e jurídica constituída. Pensou nisso?

Em pouquíssimo tempo, segredos ficarão seguros apenas em pensamentos. Verdades explícitas, acessíveis e bem mais transparentes do que você possa imaginar, devido à evolução dos artifícios de rastreamento online. Até porque, nada é apagado da internet, pelo menos é o que revelam especialistas digitais. Fora isso, confessionários de igrejas, divãs ou tribunais terão apenas versões, talvez frágeis, sobre a parcialidade dos fatos contatos.

Mas a vida não é aleatória por acaso. E volto a falar de anjos e regras, afinal, pensar desta maneira alivia a tensão de inaugurar mudanças na nossa própria história. Pensar diferente, agir fora do convencional e bagunçar estruturas não são caraterísticas comuns a todos, apenas para os que ousam. O resto segue com ‘a manada’, fazendo checklist de tudo, dormindo e acordando com despertador, arriscando o nada nesta construção de felicidade teorizada e intangível (ao menos para eles)… Afinal, o zero é um lugar bem mais confortável e seguro que qualquer outro da escala infinita.

No time dos que sentem a vida pulsar, há coleções de contos, cheios de acertos e erros medidos pela superação e fé. E neste momento deixo a visão de anjo ‘alegoricamente’ pessoal e intransferível, pois importante mesmo é melhorar a própria versão nutrindo de crenças de que será possível, independente do resultado ou até mesmo se ninguém estiver olhando, mas ajudando o outro a realizar seu sonho também.

Nunca vi vencedores sem capítulos desastrosos e bem-humorados sobre toda a trajetória até alcançar o estrelato. Aliás, eles nunca estão sozinhos. É minha versão, verdade relativa eu sei, …, mas que me acompanha desde pequena, quando eu já ensaiava os primeiros e próximos passos. Com ou sem asas, voando em criatividade, acreditando naquilo que fazia meu coração sorrir, encaro a luz. Apesar do consenso, olhar pra ela pode não significar morte, mas muita vida além dela. E seja o que Deus quiser, mesmo que Ele não esteja vendo nada disso.

Claudia Queiroz é jornalista.