Em datas comemorativas de meio ambiente, especialmente a do Dia Mundial, não são poucas as demonstrações de boas intenções, seja no Brasil ou em qualquer outro lugar do mundo. Efetividade, no entanto, é inversamente proporcional aos megalomaníacos projetos que se lançaram e continuam sendo lançados. Protocolos de Intenção, então, nem se fala, estes vicejam mais que erva daninha. Enquanto isso e dentre os vários setores, a agricultura é a sempre lembrada como a responsável pelos desmandos ambientais, esquecendo-se de que os agricultores já se deram, conta, há muito tempo, de que sem adequado manejo dos recursos naturais seu empreendimento terá vida curta.
Graças a compreensão e atenção com seu patrimônio natural é que a agricultura de agricultores modernos estão garantindo as contas do Brasil, cujo volume de produção e especialmente valores de exportação, sem associá-los ao contexto e conceitos, faz levar à impressão de que os agricultores estão nadando em dinheiro, ou como se diz na roça, estão lavando a égua ou com o burro na sombra.
Relativamente aos conceitos, é importante frisar que o termo agronegócio, surgido em Harvard há mais de cinqüenta anos, envolve não somente o tradicional setor primário, o chamado agroextrativista, mas também o setor secundário da indústria de transformação e o setor terciário de serviços. A relação insumo/produto e os valores que se agrega ao longo da cadeia, se não forem bem entendidos, pode resultar no absurdo de que a parte é maior que o todo.
Agrega-se valor à semente que vira grão, ao grão que vira farinha, à farinha que vira pão e assim por diante, mas aí o valor final corresponde não só à agricultura, mas também à indústria e o comércio. Uma grande contribuição, no entanto, refere-se à nova dimensão que o termo agronegócio cunhou, ou seja, agricultura passou a ser um negócio e como tal, quem não tem competência pode até se estabelecer, mas não se cria.
Quanto ao contexto é importante lembrar que escala e qualidade são indispensáveis para o atingimento de um bom resultado final, só que escala sem boa gestão é o caminho mais curto para a vaca ir para o brejo. Sem boa gestão de compra e venda, não há tecnologia que salve a lavoura. E quando boa parte da renda do setor primário, exclusivamente, decorre da exportação de grãos, maior é a vulnerabilidade. E se esse é ainda um longo caminho a percorrer, nada como se prevenir.
Dez em cada nove produtores, quando perguntados sobre a aplicação dos bons resultados da agricultura nos últimos anos, responderão que irão saldar as dívidas, o que significa dizer que se não fossem os bons resultados todos estariam falidos e a agricultura deixaria de existir. Ledo engano, os preços das terras nunca estiveram tão elevados, do Oiapoque ao Chui, visto que até no Amapá a soja já chegou. E no Matopiba – Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, quem no começo não comprou grandes fazendas, agora consegue comprar não mais que sitios. Para muitos agricultores a lógica ainda é a do esgotamento primeiro para depois cuidar da adequada preservação ambiental.
É de se perguntar se não seria esse o momento de os produtores porem-se em dia com as exigências ambientais ao invés da compulsão em comprar mais terras, uma vez que a variável ambiental será cada vez mais determinante para o sucesso do negócio? Mas como diz o velho ditado: “quem quer racionalizar na paixão é porque perdeu a razão”. “Mutatis mutandi”, na lógica dos produtores tradicionais só não compra mais terra quem é louco ou porque tem pouco (dinheiro).

*Joaquim Severino é diretor presidente da empresa Agrária Engenharia e Consultoria S/A e Professor de Política Agrícola da Universidade Federal do Paraná (1973/2010) – escreve nesta coluna desde 1992.