MARINA ESTARQUE
FOLHAPRESS Brasileiras abrem negócios tanto quanto os homens, mas ganham 22% menos e suas empresas fecham mais rápido. Os dados são do relatório do Sebrae sobre empreendedorismo feminino, apresentado nesta quinta (8), em evento em São Paulo.
Segundo o estudo, mulheres são cerca da metade dos empreendedores iniciais (com negócios de até 3,5 anos). Elas correspondem a 49% ou 11,9 milhões de empreendedores nesta etapa. Já entre os estabelecidos, cujos negócios estão consolidados, elas representam 43%.
As empreendedoras, apesar de serem mais escolarizadas, ganham 22% menos que os homens, com rendimento mensal médio de R$ 1.831.
Para a coordenadora nacional de empreendedorismo feminino do Sebrae, Renata Malheiros, um motivo que ajuda a explicar essa diferença é a maternidade e o papel da mulher na família.
“As mulheres dedicam 18% menos horas ao negócio do que os homens. Isso porque cuidam da família e das tarefas domésticas, é uma questão cultural. Isso toma muita energia e tempo delas.”
As empreendedoras dedicam em média 30,8 horas por semana ao seu negócio –para homens, esse tempo sobe para 37,5 horas. Ao mesmo tempo, 79% das empregadoras também fazem trabalho doméstico.
“Precisamos olhar a sobrevivência dessas empresas, porque a maioria dos negócios que fecham [no estado de SP]é de mulheres. Então, essa coisa de dizer que está tudo certo, ‘agora é a vez delas’, não é assim”, disse Junia Nogueira, da Rede Mulher Empreendedora.
Outra diferença é que a parcela de negócios por necessidade é maior entre as mulheres –44%, contra 32% para homens. Isso significa que elas empreendem para fugir do desemprego ou porque não têm alternativa de renda, segundo Malheiros.
“Nesses casos, a pessoa não se planeja, é precário. Já o empreendedorismo de oportunidade, a pessoa vê uma chance de negócio, busca informação, se prepara. Esse é o empreendedorismo que precisa subir no Brasil.”
De acordo Malheiros, as empresas costumam empurrar as mulheres para o empreendedorismo, porque muitas são demitidas após a maternidade ou buscam horários mais flexíveis para conciliar com a família.
A coordenadora do Sebrae destaca ainda outros fatores que podem pesar para o sucesso das empresas lideradas por mulheres, como a confiança e as barreiras culturais.
“As crenças limitantes são aquelas coisas que colocam na nossa cabeça ainda na infância, de que certas áreas não são para a mulher. Isso influencia as nossas escolhas e trajetórias.” Ela cita a ideia de que as mulheres seriam piores em matemática.
“É muito comum ver empreendedoras que delegam o setor financeiro da sua empresa para o marido ou para um contador. E o financeiro é o coração da empresa.”
Malheiros afirma que mulheres empreendedoras tendem a ser menos confiantes do que homens nas mesmas posições. Apesar de terem conhecimento técnico por serem mais escolarizadas, elas precisam melhorar as competências socioemocionais, defende Malheiros.
“Nós mulheres temos muito a avançar nas soft skills, como a capacidade de falar em público, fazer networking, defender uma ideia. É contraintuitivo, porque as as mulheres são vistas como mais empáticas. Sim, elas em geral são, mas essa não é uma competência muito valorizada no mercado de trabalho”.
Ela cita dificuldades para participar de encontros sociais relacionados ao trabalho. “Quantas vezes eu já ouvi colegas perguntarem: ‘você vai no happy hour depois do trabalho? Eu não queria ser a única mulher lá’. Por que isso é um problema?”
Um bar ou um almoço podem ser impedidos por certos estereótipos, afirma ela. “Coisas simples como tomar uma cerveja depois do trabalho são barradas porque a mulher tem um marido ciumento ou um filho pequeno esperando em casa. Ou ela tem medo de convidar um colega homem e ele achar que ela está paquerando”, conta.
A desvantagem também aparece no acesso ao crédito. Apesar dos índices de inadimplência mais baixos, as empreendedoras recebem empréstimos com valor médio de cerca de R$ 13 mil a menos, e com juros mais altos, de 3,5 pontos percentuais.