Aos poucos a lógica eleitoral de 2018 vai se impondo no cenário do país: a notícia da desistência do ex-ministro Joaquim Barbosa, que era pré-candidato presidencial, foi o fato mais destacado na semana. Com a saída do ex-presidente do tribunal constitucional o leque de postulantes se afunila, em especial no centro da disputa, o que em médio prazo vai aclarar o quadro e facilitar a decisão do eleitor.

ANÁLISE

A desistência de Barbosa reduz o apelo eleitoral dos “outsiders”, celebridades e figuras que, conquanto disponham de forte exposição pública, não detêm necessariamente maior experiência política. Impõe-se a realidade de que a Presidência é uma função complexa, em especial no Brasil – país trabalhado por situações específicas e condicionado por um modelo de coalizão que na essência é pesadamente instável.

ANÁLISE (II)

O quadro brasileiro foi tornado ainda mais delicado pela superposição de fatores que levam à clivagem: uma Constituição que chega defasada aos 30 anos, um cenário caótico de trinta partidos inorgânicos, uma representação distorcida pelo sistema proporcional de lista aberta e uma transição incompleta para a modernidade. Aqui o patrimonialismo de ontem foi substituído pelo corporativismo de hoje, tão ou mais nefasto.

RESILIÊNCIA

Superada a atração da novidade efêmera representada por Joaquim Barbosa, a tendência é de as candidaturas sobreviventes se agruparem à direita e esquerda, deixando um centro menos congestionado. As convenções partidárias de julho tenderão a consolidar os nomes de Álvaro Dias e Jair Bolsonaro à direita; de Marina Silva e Ciro Gomes à esquerda e de Geraldo Alckmin e Rodrigo Maia ao centro.

ANÁLISE

Outros postulantes menos representativos ainda poderão se inscrever, porém concorrendo por um segundo escalão fadado a compor alianças de segundo turno. Todos, em conjunto, fortalecendo um calendário eleitoral dotado de resiliência suficiente para operar como fator de superação das perplexidades que, no momento, ensombram o horizonte político do país.

DOIS DESTINOS

O ciclo de instabilidade derivado do ajuste dos juros e da reorientação comercial dos Estados Unidos tem afetado a moeda de países emergentes, com pressão sobre economias nacionais vulneráveis. Entre elas, a Argentina e Turquia; a primeira por exibir déficits gêmeos e a segunda pela mão pesada do governo sobre a sociedade. O Brasil atravessa o ciclo com mais leveza: exibe considerável liquidez externa e inflação reduzida.

ANÁLISE

Deixamos de ser “a bola da vez”, por um conjunto de circunstâncias favoráveis, enquanto o vizinho do Mercosul padece as dores de uma situação histórica infeliz. Lá o longo ciclo do populismo peronista, forçando gastos públicos em benefício de setores com poder de pressão, certa inexperiência de gestão, mais efeitos da natureza (uma seca quebrou safras), ampliaram o déficit público e derrubaram o estoque de divisas.

ANÁLISE (II)

No Brasil fatores como o populismo sob Vargas, Sarney e mais, recentemente, de Lula II e Dilma – computado ainda o estatismo do período Geisel – foram menos nocivos do que o ciclo peronista argentino (sob o próprio Peron, Campora, os dois Krichner, etc). Por isso, nosso país consegue navegar melhor na tempestade do ajuste do “Fed” americano.

ANÁLISE (III)

O que não é consolo pleno porque – economias vinculadas – logo sofreremos respingos da crise argentina. Mas as políticas sensatas aqui implantadas – tais as primeiras reformas empreendidas sob o atual governo, além de uma gestão mais qualificada na economia e, sobretudo no Banco Central – dão fôlego para atravessarmos a turbulência sem perdas maiores.

MARCHA DA INSENSATEZ

A opinião pública informada reconhece que, não obstante limitações de origem, o governo do presidente Temer conseguiu colocar o país em marcha, pelo menos no primeiro período de gestão: implantou um teto que veda a elevação descontrolada da despesa pública, promoveu atualização da arcaica legislação trabalhista, equacionou o endividamento dos estados-membros e modernizou a formação educacional.

MARCHA DA (II)      

Ponto positivo foi a escolha de técnicos qualificados para a sensível área econômica, à frente o então ministro Henrique Meirelles na Fazenda e um operador respeitado, Ilan Goldfajn, presidente do Banco Central. O problema é que Temer foi bloqueado desde o ano passado por uma sucessão de denúncias levantadas contra ele e colaboradores próximos – situação polêmica que acabou desestabilizando a gestão.

ANÁLISE

É preciso cautela nessa saraivada – adverte o ex-presidente Fernando Henrique. Sob o ângulo político cumpre ter em vista a lição da Itália, onde operações radicais anti-corrupção resultaram na erradicação da classe política do pós-guerra, levando à instabilidade crônica que persiste até nossos dias. Na esfera econômica a disputa entre agentes do Estado para penalizar grupos empresariais desmantela a “expertise” construída ao longo de décadas – notadamente no gerenciamento de obras pesadas.

ACORDO RESISTE?

A denúncia do acordo de contenção nuclear do Irã por parte do governo dos Estados Unidos não foi seguida pelos demais signatários do pacto: europeus ocidentais, Rússia e China. De sua parte o governo de Teerã reagiu com moderação à retirada do principal ator: informou que vai negociar sua manutenção com os demais países, tentando evitar o cancelamento definitivo do arranjo.

ANÁLISE

Em outra atuação do governo Trump contra o que considera situação desfavorável aos seus interesses nacionais, os Estados Unidos passaram a pressionar pela revisão de acordos comerciais com vários parceiros – mirando principalmente a China. Mas, num jogo de contrapressões próprio de sua estrutura democrática, mais de mil economistas americanos firmaram um apelo público pela moderação nesse afã protecionista.

CRIMINALIDADE

Para enfrentar o desafio da criminalidade o governo federal acaba de criar uma Câmara Setorial de Prevenção e Segurança. Objetivo: reunir ministérios da área social, sob coordenação do ministro Raul Jungmann, para combater a violência desenvolta. As ações miram especialmente nos jovens entre 15 e 24 anos, moradores nas 109 cidades que registram maior ocorrência de homicídios.

ANÁLISE

A experiência desafiadora do Estado do Rio, onde o caos na segurança pública exigiu intervenção federal, é que não bastam ações exclusivas de polícia. As próprias autoridades reconhecem: a redução da cultura de violência demanda ação conjunta de todos os serviços públicos,  num esforço de inclusão social que preserve, sobretudo, os jovens carentes – hoje fortes candidatos a engrossar a estatística dos mortos ou condenados precocemente.

Rafael de Lala e Vagner de Lara, jornalistas

                            Beatriz Santana – Estagiária de Jornalismo, UNIBRASIL