por Claudia Queiroz

Era para ser apenas um trabalho escolar. Meu primeiro como mãe. O bilhete na agenda pedia para enviarmos ao colégio um objeto que representasse a escola para a família. Passei então o final de semana inteiro pensando, …, numa espécie de ansiedade pré-prova! Integração com o ambiente onde minha filha estuda? Genial!!! Na mente, uma enxurrada de pensamentos pipocava categorias como “responsabilidade”, “bons tempos”, “divertimento”, “estreias”, “criatividade” e várias outras.

Lembrei do portão que fecha rigorosamente às 13:30, dos carimbos de atraso, do cronômetro marcando 4h diárias, da logomarca do uniforme, das mesas e carteiras onde sentamos por tantos anos, da hora do lanche, das primeiras lições, dos desenhos e mais tantas ideias.

Acordei pronta pra ‘causar’. Peguei uma caixa de joias, cortei um pedaço de papel alumínio e enrolei no dedo. Decidi criar uma aliança de compromisso! Quer símbolo melhor como elo de ligação entre a família e a escola dentro de uma proposta de consolidação de valores?

Estava ansiosa para receber o resultado. Porém, foi intrigante ler da professora o elogio pelo ineditismo, mas que estavam esperando apenas itens como lápis e caderno para um jogo pedagógico.

Então a nota foi zero??? Um teste que pulsou meu potencial criativo e materno, abrindo um portal no tempo entre passado, presente e futuro, depurando o melhor das boas intenções, marcando a integralidade deste momento não compreendido! Pedido de “casamento” recusado. Aliança posta de lado, feito um zero à esquerda.

E eu suspirando pelo infinito… Um imenso vazio aberto no peito. Respirei, inspirei e bufei para arejar a frustração. A escola não está comprometida com os mesmos princípios do meu sonho romântico e o anel que fiz ficará resumido às brincadeiras de recreio tipo ‘passa-anel’? Hein? Como assim???

Quer dizer que a expressão ‘pensar fora da caixa’ será exigida somente quando esta geração tiver que enfrentar o mercado de trabalho e os demais desafios em todas as áreas da vida sem a necessidade de formar uma base sólida desde o início? Realmente não consigo imaginar minha filha limitada numa ‘indústria 400.0’ e levando para o chefe um lápis como resposta sobre a carreira que pretende construir ali.

Muitas vezes certo ou errado depende apenas do ângulo de vista previsível. Não sabemos muito sobre as profissões que ainda serão criadas nem dos problemas que surgirão, mas algo me diz que a criatividade nunca sairá de moda. Além disso, caminhos diferentes sempre inauguram lugares, paisagens e soluções.

Que maravilha acontecerá na humanidade quando famílias e escolas ensinarem nossas crianças que todos podemos voar, compartilhando conhecimentos e despertando a curiosidade sem tanta rigidez no gabarito. Uma sociedade plural, vibrante como ‘exclamação’ e surpreendente nas ‘reticências’. Enquanto isso, o anel de papel alumínio promete não desistir de ouvir o tão esperado ‘sim’.

*Claudia Queiroz é jornalista.