por Claudia Queiroz

Para um milagre acontecer, o primeiro passo é acreditar que ele existe. Aliás, toda fé exige, ao menos, crença no poder e no alcance da graça. Símbolos religiosos, conceitos, dogmas ou citações são meramente interpretações pessoais. Algo intransferível, inquestionável. É preciso sentir tudo isso como verdade. Porém, no país mais católico do mundo, a beatificação de uma santa renova a esperança por dias melhores.

Irmã Dulce, a primeira santa brasileira, que ficou conhecida como “anjo bom da Bahia”, foi reconhecida por dedicar a vida aos pobres, doentes e socialmente excluídos. Improvisou um ambulatório no galinheiro ao lado do convento onde morava, em Salvador, para atender necessitados, resistindo às adversidades e inspirando boa vontade.

Desenganados pela medicina, um cego e uma mulher com hemorragia no pós-parto tiveram seus dramas sanados sem explicações científicas. Foram milagrosamente curados. No entanto, uma comitiva de médicos brasileiros e italianos passaram anos buscando justificativas clínicas que só foram explicadas pela fé. Atualmente milhares de devotos acumulam lindas histórias de devoção e superação à mais nova santa.

A canonização, com cerimônia no Vaticano e missa celebrada pelo Papa Francisco representa mais que uma homenagem ao Brasil. É o reconhecimento dos milagres, fenômenos estes de renovação nas surpresas vindas do coração.

Mas guardadas as devidas proporções, quantos pequenos milagres podemos praticar na vida de alguém que nos pede ajuda? Seja no sinaleiro, seja embaixo da marquise perto de onde você mora… Já se deu conta da quantidade de crianças que merecem ser nutridas de sonhos? E os dramas próximos, de familiares, amigos ou conhecidos, que precisam apenas ser ouvidos…

Entendo que nem todos nós temos a filantropia na veia. Mas sem dúvida alguma somos movidos por amor, mesmo que muitas vezes não saibamos o que fazer com ele… Nosso mundo carece de bondade, cumplicidade e reciprocidade. Tudo isso deixa rastros de evolução.

De qualquer modo, considero uma espécie de milagre o que aprendemos com as dificuldades, limitações, problemas, doenças, diferenças…, pois são eles, ao menos no meu ponto de vista, que nos aproximam de Deus.

Parece simples, mas pequenos milagres podem acontecer todos os dias, quando enxergamos o outro como igual, mesmo cheios de falhas e reconhecemos que também somos imperfeitos através do exercício da humildade. No entanto, cabe a cada um de nós compartilhar experiências e soluções para melhorar o mundo, mesmo que represente um universo ‘simbólico’ a poucos metros de você…

Quando alguém faz algo pelo outro sem esperar troca, valida a existência divina e amplifica o efeito das boas sementes. Por isso é comum descobrir o valor e o tamanho do espaço que elas deixam quando vão embora. Então nos damos conta que a gratidão pode fazer eco.

Sabe qual o principal legado de irmã Dulce? Humanidade. Significa ‘descer do salto’, ‘colocar a mão na massa’ para ‘fazer mais’ e ‘pregar menos’. Ninguém digere por muito tempo conceitos teóricos, verticais, dentro da ‘zona de conforto’ do ‘faça o que eu digo, não faça o que eu faço’. Aprendemos com exemplos em ação. É aí que vivem os verdadeiros milagres. Obrigada doce irmã. Que a iluminação possa brilhar mais a cada dia em nossos caminhos e no de muitos outros, independente de sorte ou destino.

 

Claudia Queiroz é jornalista.