DO FEAP À CODAPAR – CONTINUO RENASCER

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Existem pessoas que veem dificuldades em cada oportunidade que aparece, enquanto outras veem oportunidades em cada dificuldade que surge. A incalculável capacidade de criação do homem só não é compatível com a descrença. Neste governo Beto Richa que se iniciou prometendo um choque de gestão, o que se está prenunciando hoje é uma gestão de choque, protagonizada por uma das empresas vinculadas da sua Secretaria da Agricultura, nomeadamente CODAPAR – Companhia de Desenvolvimento Agropecuário do Paraná.
No começo dos anos 60 era o FEAP, Fundo de Equipamento Agropecuário, agência da Secretaria da Agricultura, presente nas bibocas mais distantes desse paranazão, a qual vendia matracas plantadeiras de grãos, formicida Tatu para acabar com a saúva, creolina usada na capação e mata-rato para desinfestar os paióis. Mas o que mais se vendia mesmo era machado, foice e facão, usados para espantar bichos bravos, derrubar a mata e fazer coivaras.
A agricultura cresceu e com ela o Paraná. Assim, o velho FEAP deu lugar à moderna CAFÉ do Paraná, Companhia Agropecuária de Fomento Econômico, que passou a vender de tudo, especialmente sementes de algodão de que tinha o monopólio e, como grande novidade, prestava serviços de tratores, derrubando mato, fazendo estradas e murundus para conter a erosão.
A agricultura continuou crescendo e a CAFÉ foi perdendo competitividade, perdeu o monopólio das sementes, suas máquinas foram ficando poucas e obsoletas, as receitas foram diminuindo, menos os custos próprios de órgão público, quer chova ou faça sol. Salvou-a da falência a grande geada de 1975, por mais paradoxal que pareça. A CAFÉ, na emergência, passou a ser a empresa do etecetera, importando sementes do México, bezerras do Canadá, ovelhas do Uruguai e por aí afora.
A substituição do café, cultura da qual não ficou um pé verde no pós-geada, por lavouras temporárias como milho, soja e algodão, ensejou a compra de grande frota de motoniveladoras para a construção de terraços de base larga, tecnologia de última geração, à época, para o combate à erosão. Cooperativas e financiamento farto para a compra de máquinas e equipamentos nos anos 70 inviabilizou a CAFÉ, assim como as Copasa e Claspar, companhias do governo do Estado para armazenagem e classificação de produtos agropecuários.
Foi daí que surgiu a CODAPAR de hoje, a junção de três empresas inviáveis e que só não foi fechada ainda por duas razões, sendo a primeira a estabilidade que é assegurada à maioria de seus funcionários e que não podem, portanto, serem simplesmente demitidos. A segunda razão, essa sim é de tirar o chapéu, por ser incomum, por revelar honestidade de propósito, por demandar coragem para “botar a cara a tapas”.
Seus diretores acabam de propor, através do documento “Redirecionamento dos Objetivos Estratégicos da CODAPAR”, a assunção como destacada protagonista no grande Programa Paranaense de Manejo de Solos e Água, em vias de ser lançado pelo Governo Estadual através da Secretaria da Agricultura – SEAB. O mote não poderia ser mais adequado, ou seja, “segurar a água da chuva onde ela cai”, sem deixar que ela escorra para dentro das estradas e reservatórios. E para isso a CODAPAR tem tradição, tem expertise e tem, sobretudo, a convicção de que o momento é o de “estratégias como inteligência do processo”, não de grandes estruturas.
O que seus mais de 250 técnicos especializados e de longa experiência estão esperando, é a oportunidade para intervir com expertise nos mais de 100 mil quilômetros em estradas rurais em terra do Paraná (84% da malha), para intervir na adequação das microbacias dos entornos dos reservatórios, especialmente os da Sanepar, de forma que as águas neles armazenadas sejam de águas limpas filtradas pelo solo e não de águas sujas de enxurradas.

Joaquim Severino – Diretor Presidente da empresa Agrária Engenharia e Consultoria S/A e Professor de Política Agrícola da Universidade Federal do Paraná – 1973/2010, tem escrito mais de mil artigos nesta coluna desde 1992.