Design nacional bota o pé no milho

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“Sustento da vida” há sete mil anos, o milho torna-se insumo para moda sustentável, ganhando boa visibilidade na 20ª edição do Inspiramais, respeitável salão de design e inovação de materiais da América Latina, recém-realizado em São Paulo. A presença do cereal teve maior notoriedade graças à Cofrag, que expôs uma novidade no mercado nacional – o calçado desenvolvido com o tecido PLA-Bio, obtido do biopolímero derivado do açúcar do milho.

“O fio (ácido polilático) é similar ao poliéster sintético, entretanto tem a vantagem de ser biodegradável”, realça Igor Alves, engenheiro de produtos da Cofrag, indústria têxtil de trinta anos, com cinco unidades no Brasil (Bahia, Ceará, São Paulo, Sergipe e Rio Grande do Sul).

Além de ser biodegradável, a proteção ambiental vem desde o plantio: o milho é cultivado na Índia e – importante – não é geneticamente modificado. “Estamos agora fazendo estudo para o tecido, quando descartado, voltar a ser fio”, adianta o engenheiro.

Não é a primeira vez que o milho, como exemplo de matéria-prima  sustentável, vai ao Inspiramais: as bolsas e sandálias de palhas trançadas já ganharam o mercado. Entretanto, seu processo torna-se mais sofisticado.  Três empresas calçadistas estão fazendo testes com o PLA-Bio.

Igor Alves detalha que o fio é importado, sendo usado em vários produtos, mas até se tornar a malha usada no cabedal de calçados consumiu dois anos de pesquisa na unidade de construção de tecidos da empresa.

A Cofrag também tece a partir de poliéster reciclado e com insumos de fiação, que a Arezzo já vem usando em uma coleção de tênis. “Não tenho mais descartes no nosso processo”, diz Alves, ilustrando um dado sustentável. Porém, o consumidor, para andar conforme manda a natureza, deve saber que um calçado do gênero pode ter o custo até 60% maior.

Sustentabilidade não é modismo

A preocupação sócio-ambiental não é modismo do Inspiramais, que completa dez anos de vida. Além do Espaço da Sustentabilidade, onde a Cofrag se fez presente com sua malha de milho, ao lado de mais 14 empresas, todos os 180 expositores do salão, de alguma forma, mostram sintonia com a causa. E na próxima edição, “vamos crescer em eventos e número de expositores, principalmente na área do projeto Inovamais, que traz design agregado a soluções tecnológicas desenvolvidas por processos sustentáveis”, adianta Ilse Guimarães, superintendente da-Associação Brasileira das Empresas de Componentes para Couro, Calçados e Artefatos.

Garantindo “uma importância gigante no universo da moda hoje”, para o designer Walter Rodrigues, coordenador do Núcleo de Design da Assintecal, a sustentabilidade, afinal, “deixou de ser um conceito e passou a ser uma prática cotidiana e vai impactar na escolha dos consumidores conscientes”.

Em sua edição deste janeiro, o Inspiramais – Salão de Inovação e Design de Materiais, que abraça os setores calçadista, automotivo, confecção, acessórios, bijuterias e até o pet (bichos de estimação), recebeu cerca de 7.800 visitantes brasileiros e estraangeiros.

Em exposição perto de mil produtos de empresas afinadas com uma produção pautada em referências e inspirações espelhadas na brasilidade, desenvolvidas durante seis meses por 28 profissionais do Núcleo de Pesquisa do Inspiramais.

Esse trabalho nasce da união da Assintecal, ABIT, Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil, Abimóvel, Apex-Brasil, com apoio de entidades setoriais e do Sebrae. Tem patrocínio da Cipatex, Altero, Bertex, York, Sprint Têxtil, Caimi&Liaison, Brisa/ Intexco, Cofrag, Advance Têxtil, Endutex, Colorgraf, Componarte, Branyl, Aunde Brasil, Suntex Brasil, Camaleoa, Top Shoes / Pettenati e Soares Materiais para Calçados.