Desassossego de amor

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*por Claudia Queiroz

Há quase 100 anos, o escritor Carlos Drummond de Andrade gerou uma certa comoção com o poema Quadrilha. Era auge do Romantismo e ele falava da bagunça afetiva que percebia naquela época, provavelmente sem imaginar o quanto a obra seria imortal, atemporal e eterna. Se você não conhece, leia e, provavelmente enxergará situações semelhantes com sua própria vida.

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história

Fato é que somos iludidos com o amor romântico na juventude e enfrentamos o choque de realidade quando o tempo passa e a vida fica. Nos apegamos às lembranças, mas desapegamos das pessoas. A fortaleza do amor fica camuflada na quantidade de anos vividos juntos, porém, muitas vezes com profundidade rasa e intimidade crua.

Certa vez, tive uma funcionária apaixonada por um fulano, que demorou alguns dias para se posicionar sobre as intenções dele. Então ela saiu com o primeiro que apareceu no bar, evidentemente um conhecido do “dito cujo”, porque todos moram numa vila da Região Metropolitana de Curitiba. Explodiu qualquer chance de conquista, certo?

Outra conhecida engravidou do irmão do “homem da vida dela”. Detalhe, era casada com um terceiro. Abortou. Tempos depois, cheia de culpa silenciosa, adotou uma criança. E a vida seguiu com buraco no peito e infelicidade latente. Dividiu o segredo comigo num momento de desabafo.

No consultório médico do ginecologista, a secretária entrava em pânico no telefone com a insistência de uma mulher que precisava falar com o doutor naquele exato minuto. Estava grávida e não sabia quem era o pai, porque havia se relacionado com vários homens no período fértil, sem se cuidar, e queria que ele dissesse a ela o que fazer…

Afetos à parte, ouso afirmar que a maioria das pessoas hoje vive presa em si, na instantaneidade das respostas e no baixo investimento em uma relação. Homens e mulheres viraram cardápios em aplicativos. A nudez ficou banalizada. “Eu te amo” é uma frase dita e nem sempre sentida, mas comumente confundida com “felicidade momentânea” e o sexo, que no passado era tabu, acabou liberado para responder desejos imediatos. Viva o empoderamento feminino?

Respeito? Cumplicidade? Comunhão? Parceria? Empatia? Proteção? Dedicação? Devoção? Tudo é relativo. O amor afetivo talvez tenha se transformado no sentimento teórico mais egocêntrico e desumano já visto neste mundo. Falta vínculo. Distante do sonhado e, temperado com superpoderes, nossos heróis modernos sentem orgulho em enaltecer habilidades intelectuais, materiais e físicas, mas permanecem miseráveis emocionais.

Realidade dura essa de quem resolve a tristeza com um drinque, substitui pessoas como se fossem objetos quebrados ou deletam relações com um simples toque na tela do celular.

Definidamente não entendo as cenas que vejo na vida privada. Amigas descasadas vão para o bar em busca de… diversão. Todas querem encontrar alguém. O que fazem? Vestem-se com roupas justas, curtas e decotadas na tentativa de “valorizar a embalagem”, num ambiente onde não se ouve nada além da música eletrônica alta. Postam fotos sorrindo, como troféus de que a noitada valeu à pena. Acordam solitárias e passam horas trocando mensagens sobre os desastres da vida amorosa. E continuam fazendo a mesma coisa?

Na linguagem do marketing, rótulo atrai venda e produto fideliza consumo. Quando minha sobrinha tinha 4 anos, comprei para ela uma pasta de dente das princesas da Disney. Ela experimentou e fez aquele ECA sobre o gosto. Me disse: tia, você não sabe que essa caixa bonita pode enganar a gente? Engoli aquela verdade a seco e hoje, 11 anos depois, lembrando disso, torço para que a geração dela saiba consumir melhor todo tipo de “produto”. Afinal de contas, está tudo tão disponível, especialmente versões de amor… Pois que seja infinito enquanto dure, como dizia Vinícius de Moraes. “C´est la vie”.

Claudia Queiroz é jornalista.