Derrotado, mas vivo!

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O senador Aécio Neves esperou o resultado final do pleito que travou com a presidente Dilma Rousseff e telefonou cumprimentando a chefe da Nação pela reeleição. Cumpriu o dever já seguido nas nações civilizadas. Não importa que ambos tivessem travado durante meses uma luta que em alguns momentos acusou golpes abaixo da linha da cintura. É do jogo, dir-se-á. Não é do jogo. Pelo menos do jogo limpo. Pena que não haja na política e sobremodo nas eleições o cartão amarelo e o vermelho. O amarelo os dois mereciam. Já o vermelho, por certo, só admitido para o adversário. Reciprocamente.

Aécio cumprimentou a Dilma e seguiu para fazer o seu pronunciamento. Que disse o mineiro? Disse estar “vivo”. Jovem para a política, 54 anos, está vivo. Pronto, deixou o recado de que é o primeiro da fila em 2018 pela oposição, a despeito de que possa surgir uma nova e respeitável liderança. Ou que se olhe ainda para Alkmin, Serra e outros antigos defensores do partido que elegeu Fernando Henrique Cardoso.

O parlamentar mineiro deixa o recado antes que outros se aventurem e se inscrevem por antecipação. Ora, para quem fez mais de 48% dos brasileiros (e brasileiras), é muito natural entender a já liderança capaz de enfrentar o candidato de Dilma quatro anos após. Note-se que possíveis competidores, Serra por exemplo, mantiveram-se unidos em torno da candidatura de Aécio. Na verdade pode-se dizer que o senador mineiro conseguiu apaziguar o partido. Alkmin, sobretudo, esteve em todas, mas não se despreza José Serra, que chegou a disputar nos bastidores o lugar de Aécio na chapa que enfrentou a presidente Dilma. Politicamente, partidariamente, poderá, sim, ser a bola da vez também em 2018.

Nesta campanha, indaga-se, ocorreu alguma falha a qual esteja Aécio sendo responsabilizado? Sim. Se não em altos brados e para o exterior partidário, a derrota em Minas Gerais é vista como um desleixo do presidenciável, que teria subestimado o eleitor mineiro entendendo ser obrigação dele votar no coestaduano.  Ora, esse foi o erro mais visível da estratégia da campanha de Aécio. Isso ele não aprendeu do avô Tancredo. Governador por dois mandatos, quatro vezes deputado federal, agora senador, não poderia o candidato contar como tranquila a eleição em Minas. A situação, o marqueteiro da situação, Lula e até Dilma souberam aproveitar essa deixa e investiram nas Gerais desnorteando o candidato da casa. Aécio acordou depois do primeiro turno. Era tarde. PT já tinha minado todo o seu território original. Aécio perdeu. Perdeu em Minas e sua derrota estava assim delineada.

Isso não o desmerece, pois, bem articulado, foi bem nos debates, viajou, conquistou novos eleitores para os tucanos, aumentou as bancadas de oposição no Congresso Nacional. Já dá para brigar com o PT em condições mais equânimes. É o que se promete naturalmente já para o início do ano. O mineiro foi o candidato do PSDB que mais aproximou do adversário que vai completar 16 anos no poder. Aécio está “vivo”. Ocorre que Lula também. Se não houver fato novo e importante, poderemos ter a continuidade, a parte II da luta mudando-se apenas Dilma por Lula. Aí, nosso, é começar tudo de novo.

* Ayrton Baptista, jornalista.

 

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