*por Claudia Queiroz

Dia desses, numa dinâmica sobre criatividade, listei quase 100 funções para uma bengala. Parece inacreditável a quantidade de serventia que cada objeto apresentaria além do que se propõe.

Gancho para segurar bolsa, morada de corais embaixo do mar ou cutucar cupinzeiro foram algumas das definições. No entanto, a lição dessa experiência foi ir além do óbvio, incentivando a versatilidade da imaginação.

Evidente que para pessoas naturalmente criativas a proposta teve um tom mais recreativo que tenso e é justamente aí que eu quero chegar. Momentos como este funcionam como intervalos e, quase sem querer, promovem transformações.

Se respeitarmos melhor o tempo e a pressão que as obrigações exercem sob nossas rotinas, deixaremos fluir inspirações sem pirar nas ações. Esta é a base do ócio criativo, que Domenico Di Masi propôs tão bem na década de 90 e que revolucionou o modo de trabalhar, estudar e enxergar a vida.

Não demorou para a indústria perceber que nestas situações lúdicas brotam oportunidades de mercado com outros desejos em forma de produtos ou serviços.

Terapeutas defendem teses sobre o vazio e a importância em não preencher este espaço com compromissos ou pensamentos. Como não suportamos perdas, brigamos pelas faltas e então instalamos novos conflitos. Até que compreendemos que não vale a pena supervalorizar aquilo que não é essencial.

Desacelerar a mente tem sido uma receita constante a favor da saúde. Tanto estímulo de notícias e alertas nas redes sociais distorceu a realidade colocando aquilo que era virtual no lugar do real.

Há casos de namoros que começam e terminam na internet antes do primeiro beijo… Inclusive situações íntimas que são expostas em “lives” porque acham que há necessidade de interagir com a opinião pública, o que já gerou uma série de debates.

Hoje em dia até mesmo para um evento acontecer, ele precisa existir na validação de amigos virtuais, que confirmam presença e credenciam a postagem com likes e comentários para gerar mais comprometimento. E se no dia não tiver muita gente participando, pelo menos ‘pareceu’ ter sido um sucesso porque houve engajamento nos canais de divulgação da internet e lá ficou registrado desta maneira.

Parece que de uma hora para outra todas as pessoas do mundo passaram a ter déficit de atenção. Poucos conseguem se concentrar numa conversa, aula ou qualquer outra tarefa. Ganhamos tempo e perdemos vida. Corremos de um lado para outro por um equilíbrio que transita entre extremos que vão desde posicionamentos políticos até altas doses de futilidade e artificialismo. Conexão total, quando a vontade é desconectar. Mas logo chega um alerta do banco, um lembrete na agenda e a pessoa não larga o celular nem no passeio ao shopping numa tarde de domingo. Porque conectividade ganhou status de inclusão. Mesmo que como sensação, participar de grupos sem ser excluído…

Poucas são as profissões atuais que não se beneficiam do marketing e do design. Uma amiga dizia com propriedade algo intrigante anos atrás: não importa seu tamanho, tem que parecer grande!

Ser e parecer, eis a questão que desbancaria conceitos filosóficos para chegarmos a conclusões interessantes a respeito dos intervalos de tempo, tão fundamentais quanto produzir. Só assim conseguiremos deixar nossas vidas fluir.

É no sono que sonhamos, no esvaziamento mental que transcendemos, no alongamento corporal que ganhamos amplitude de movimentos…. Mas desde que estejamos em sintonia com o estado de espírito. Fora disso, chiados continuarão a distorcer pensamentos, sentimentos e ações. Esse é o segredo.

Claudia Queiroz é jornalista.