Três dias após o site The Intercept Brasil divulgar as primeiras mensagens atribuídas ao então juiz Sergio Moro (hoje ministro da Justiça) para o procurador Deltan Dallagnol e colocar em xeque sua condução do processo da Lava-Jato, Jair Bolsonaro (PSL) levou o seu ministro às tribunas do estádio Mané Garrincha, em Brasília, para assistir à partida entre CSA e Flamengo pela Copa do Brasil.
O evento rendeu foto nas redes sociais oficiais do clube com diretores do Flamengo ao lado de Moro e Bolsonaro, este com uma camisa rubro-negra autografada (o presidente é torcedor do Palmeiras e do Botafogo). A postagem recebeu críticas, elogios e colocou, mais uma vez, o time no meio do polarizado debate político brasileiro.
Antes, no dia 31 de março (data em que o golpe de 1964 completou 35 anos), clubes como Corinthians, Vasco e Bahia se posicionaram contra uma possível celebração da data e recordaram a luta pela democracia. O Flamengo ficou em silêncio.
Um grupo de torcedores do clube, no entanto, se reuniu na sede de remo para lembrar a morte de Stuart Angel, atleta rubro-negro perseguido e assassinado pela ditadura militar. Um dia depois, a diretoria do Flamengo emitiu nota negando participação no ato e dizendo que a instituição “não se posiciona sobre assuntos políticos”.
Angel foi bicampeão carioca de remo pelo Flamengo em 1964 e 1965 e era também integrante do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8, que ficaria conhecido principalmente pelo sequestro do embaixador dos Estados Unidos, Charles Elbrick).
O remador já havia sido homenageado pelo clube em 2010, com um memorial. A placa com seu nome, no entanto, desapareceu. Ele também tem um busto no bairro da Urca e nomeia uma ciclovia que passa pelo local.
“Quando já estava na clandestinidade, o pessoal do remo abriu as portas para ele e ele saiu por vontade, para não colocar em risco os companheiros. O clube teve papel no ciclo mais duro da ditadura”, diz David Butter, conselheiro rubro-negro e integrante do Flamengo da Gente, movimento de torcedores e sócios que ajudou a organizar homenagens ao remador.
Ele diz que a nota está em desacordo com o estatuto do clube, que prevê honrar quem prestou serviço ao Flamengo. “Vimos ali uma tentativa não de revisão, mas de silenciamento de parte dessa história”, criticou.
“A diretoria do Flamengo faz um caminho semelhante ao governo atual, renegando a história do clube, tentando apagar personagens da trajetória de luta do clube”, disse o movimento de torcedores Flamengo Antifascista.
Quatro dias depois da nota, o deputado estadual Rodrigo Amorim (PSL) agradeceu em suas redes sociais o “gesto de carinho” do Flamengo: uma camisa dada a ele com o número 17 e seu nome. Segundo o clube, a atitude partiu de um funcionário, não da instituição. Ele esteve no gramado do Maracanã, em março, na comemoração da conquista da Taça Rio com jogadores rubro-negros, à convite da secretaria de Governo do Rio de Janeiro.
Durante a campanha eleitoral de 2018, Amorim quebrou uma placa que homenageava a vereadora Marielle Franco (PSOL), que era flamenguista. Ela foi assassinada em 2018.
“Acho inoportuno e inadequado (para não dizer bizarro) ver políticos de qualquer ordem comemorando uma conquista com os jogadores no campo”, disse Antônio Tabet, ex-vice de comunicação do Flamengo, cargo que deixou em janeiro.
Tabet diz entender a importância do contato com órgãos do governo (o clube lida com leis de incentivo e patrimônio cultural popular, por exemplo), o que pode incluir registrar a presença de um presidente no camarote. “O que não pode haver é dois pesos, duas medidas. Ou bajulação em troca de sabe-se lá o quê”, opinou.
A tarefa de relacionamento com órgãos públicos e instituições externas é de responsabilidade do diretor de Relações Institucionais e Governamentais, Aleksander Santos.
Santos assumiu a função em maio deste ano. Ele já foi diretor de marketing na gestão Patrícia Amorim –na época, em 2010, ela era do PSDB. Foi ele que fez o trâmite para regularizar o Ninho do Urubu junto aos órgãos responsáveis e representou o Flamengo em audiência pública convocada pela Comissão de Esportes da Câmara dos Deputados, em Brasília, para tratar de jogos online.
Foi ele também que enviou a camisa para o deputado do PSL. Na imagem postada pelo Flamengo com Sergio Moro e Bolsonaro, Santos é o diretor de óculos e camiseta preta entre os dois políticos.
Do ponto de vista histórico, segundo o pesquisador Roberto Assaf, o episódio de Stuart Angel é isolado. “O clube sempre esteve nessa posição de estar ao lado de quem chegou ao poder”, e “sempre [foi] um clube dirigido de uma elite para um povaréu”, explica o autor de “Seja no Mar, Seja na Terra”.
Assaf cita o ditador Emílio Garrastazu Médici (1905-1985), que comandou o Brasil entre 1969 e 1974, para pontuar diferenças com o episódio envolvendo Bolsonaro.
“O Médici, embora tenha sido um ditador sanguinário, gostava de futebol e ele era Flamengo doente. Nas pesquisas que fiz eu vi ele comparecendo a jogos do Flamengo quarta à noite com 8 mil pessoas”, opina.
O ex-presidente Eduardo Bandeira de Mello, que dirigiu o Flamengo entre 2013 e dezembro de 2018, quando deu lugar ao atual presidente Rodolfo Landim, segue a mesma linha de raciocínio de Tabet.
“Entendo que toda gestão precisa manter relações com o poder”, afirma. Bandeira lembra que teve que conversar com o governo durante a aprovação do Profut, em 2015. “O que não pode haver é proselitismo por parte de quem comanda o Flamengo”, disse Bandeira.
Procurado pela Folha de S.Paulo, o Flamengo informou que a diretoria atual tenta se relacionar com todos os entes políticos: federações, confederações, governador, prefeito, sempre pela instituição, sem qualquer distinção pessoal. A agremiação defende que, após o caso Ninho do Urubu, quando um incêndio matou dez atletas menores de idade, em fevereiro, a cúpula do Flamengo sentiu a necessidade de ampliar sua atuação política para defender os interesses do clube.

Foto: Reprodução  @folha