Cunho pessoal

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Jair Bolsonaro recuou de ter compartilhado vídeo com manifestação contra o Congresso e o Supremo, organizado por movimentos de extrema direita, conclamando para uma marcha em sua defesa para o dia 15 de março.

Alegou que tudo era “de cunho pessoal” e pediu aos ministros, inclusive militares, que evitem o tema. Foi uma tentativa de testar os limites da democracia – e ele já se via sendo carregado pelo povo nas ruas, o que já pensaram outras figuras na história do país. Bolsonaro não entende o papel e a dimensão de um presidente da República, a começar que não existe “cunho pessoal” para ele.

Traduzindo: brincar com fogo, nem entre amigos, tomando uma cervejinha e vendo um jogo de futebol na televisão.

 

Esvazia ou não

Diante do recuo presidencial, a convocação para a concentração pode ser esvaziada ou não. Se não esvaziar, que ninguém espere que Bolsonaro vá ao encontro dela. Líderes e militares já avisaram que estão mais que atentos. Se três gatos pingados marcharem com bandeiras e cartazes, quem esvazia mesmo – e mais do que já esvaziou – é o próprio Chefe do Governo. Militares com cargos no governo não participam do “foda-se” do general Augusto Heleno. Demoraram muitos anos para voltarem a ser respeitados.

Ninguém acredita

Ninguém acredita que Bolsonaro não tivesse compartilhado vídeo do movimento que se iniciava publicamente. O problema é que a convocação vazou em pleno carnaval e o brasileiro achou da maior gravidade, mas empurrou com a barriga, começando um movimento nacional que consiste em grandes coros do tipo “Ei, Bolsonaro, vai tomar no …” como aconteceu, de novo, na Rua São Luís, em São Paulo, num bloco de Mariana Aydar.

“Outras coisas”

O bloco Forrozin, comandando pela cantora Mariana Aydar (ela é filha da publicitária Bia Aydar, que trabalhou com FHC) circulou pelo centro de São Paulo, na Rua São Luis e tinha cordão que circundava o trio elétrico. Aydar coordenou e pagou tudo, inclusive a orquestra. A ideia de protesto corria ainda por conta da ofensa de Bolsonaro com a jornalista Patricia Campos de Mello e à certa altura, o pessoal entoou: “Ei, Bolsonaro…”. No alto do trio, a cantora emendou: “Tomar no c… pode ser muito bom. A gente tem que mudar isso. Bolsonaro merece outras coisas”.

Escondido

A alegação que compartilhou apenas com grupo de amigos do WhatsApp sobre a manifestação contra o Congresso e o Supremo não chega ser novidade. Em momentos mais tensos da Nação, o Chefe do Governo se esconde, diz que não é com ele e tanta se eximir de qualquer responsabilidade sobre atos que estimula através do “Gabinete do ódio”, que funciona ao lado de seu gabinete. É uma forma de dizer, como no antigo programa de televisão, “não me comprometa” – só se der certo.

No Twitter

No Twitter, Bolsonaro postou: “Tenho 35 milhões de seguidores em minhas mídias sociais, com notícias não divulgadas pela imprensa tradicional. No WhatsApp , algumas dezenas de amigos onde trocamos mensagens de cunho pessoal. Qualquer ilação fora desse mesmo contexto são tentativas rasteiras de tumultuar a República”. E ficou – supostamente – de fora.

Pontes implodidas

Jair Bolsonaro tem tentado passar a imagem de que é perseguido pelo sistema e reclama num tuite: “O Brasil é nosso, não dos políticos de sempre”. Esqueceu-se de que ele “é um político de sempre” e ainda carregou três filhos. E vive criando confrontos: demitiu aliados, rompeu acordos, implodiu pontes com Câmara e Senado, brigou com governadores, quis tomar um partido à força (e nessa travessuras, se machucou) e agora quer usar a militarização do Planalto a seus favor, inspirado em Augusto Heleno que, antes do carnaval, disse que “era preciso convocar o povo às ruas”.

Evitem o tema

Bolsonaro disse a ministros, incluindo os militares que participam do governo, que “evitem o tema”. É uma versão do “esqueçam o que eu disse”, já usada por governantes anteriores em outras ocasiões. Nesse primeiro round, nenhum dos ministros disse “sim” ou “não”, vestiu a camisa da rebeldia ou não, preferindo esperar “para ver o que vai acontecer”. Na manifestação de 15 de março – se não for suspensa – que ninguém espere ministros no palanque ou no carro elétrico repetindo novo bordão de Bolsonaro: incitar as massas a mostrar “a força da família brasileira” e protestar contra “os inimigos do Brasil”.

Assim não dá

A Câmara está apurando mais de cinquenta suspeitas de servidores que agem como “fantasmas”, batendo o ponto sem trabalhar ou usando de artifícios para adulterar o número de horas trabalhadas e tirar folgas adicionais. Servidores e chefes de vários setores estão sendo chamados para explicar a farra que sempre aconteceu, mas que, agora, alcançou níveis insustentáveis.

Ainda a farra

Os servidores que marcam ponto sem trabalhar têm vários esquemas: um deles é chegar às 12 horas, registra o ponto como saída de almoço, volta às 12h30 e diz ter esquecido o ponto pela manhã. Outro, no Centro de Formação, o malandro para o carro no desembarque, bate o ponto e se manda. Essa sindicância procede o Processo Administrativo Disciplinar que pode, dependendo do cargo, demitir concursados.

Esquadrão

O ex-presidente da Transpetro, Sergio Machado, que reinou durante anos, vai se mudar para um apartamento de 800 metros quadrados, comprados por um de seus filhos, em Fortaleza, onde leva uma vida de milionário. E teme por sua segurança: sempre anda acompanhado de oito homens de preto, todos armados.

Tranquilo

Rodrigo Maia, presidente da Câmara, está em Madri e conversou muito rapidamente com jornalistas. E negou qualquer tipo de atrito entre o Congresso Nacional e o governo Bolsonaro. “Tudo está tranquilo. Não tem confusão”. O pai, Cesar Maia, funciona como conselheiro do filho.

Mais mortes

Com a Força Nacional e Exército nas ruas de Fortaleza – e os policiais do estado ainda em greve – aumentam os assassinatos na cidade. Na terça-feira (25), num único dia, foram registrados 25 homicídios. Em sete dias de motim da PM, foram 195 assassinatos, não contando os últimos dois dias.

Quem não usa

Nova pesquisa Panorama Mobile Time/ Opinion Box apresenta uma informação impressionante. Dos 1.987 brasileiros entrevistados que possuem um smartphone, 1.956 , ou seja, 99%, usam o WhatsApp. É o maior potencial de uso de aplicativo desde o começo da pesquisa, há cinco anos. Desses 98% fazem uso app “todo dia ou quase todo o dia”. mais: pela primeira vez a pesquisa perguntou a opinião das pessoas sobre o tempo que gastam diariamente, com Zap. Um quarto (24%) acha que passa mais do que deveria. Ainda assim, só 13% estão dispostos a tomar medidas para reduzir esse tempo.

No comando

Quem comanda a organização da manifestação do “Foda-se” contra o Congresso Nacional marcada para o dia 15 de março é a deputada federal Bia Kicis (sem partido). Ela mantém contato permanente com as falanges bolsonaristas na internet e tem interlocução direta com Bolsonaro.

Toffoli não larga

Malgrado os ataques das falanges bolsonaristas, Dias Toffoli resiste e continua defendendo os interesses do governo. Ele se aproximou de Bolsonaro antes mesmo dele tomar posse. Entre as pautas que serão votadas na nova legislatura, está o julgamento que definirá se o Executivo pode cortar o orçamento de outros Poderes quando a arrecadação não atingir as expectativas.

Magda!

Durante o carnaval a apresentadora Luciana Gimenez, que acompanhava dos desfiles do Rio, foi perguntada o que ela estava achando do governo Bolsonaro e ele respondeu direto: “O Bolsonaro quem inventou fui eu, né? Como ele mesmo diz. Porque o primeiro programa de TV a que ele veio foi o nosso. Como profissional, acho incrível que o SuperPop lançou o presidente”. Era melhor ela ter ficado calada.

Sem críticas

Ainda Luciana Gimenez: depois de soltar que era ela que “havia criado Bolsonaro”, garantiu que o presidente é sincero. “Vou te falar uma coisa do Bolsonaro. Ele não é treinado para poder falar direito. Ele fala o que pensa e é muito brincalhão. Sei disso porque ele faz isso no meu programa. Não estou defendendo. Estou dizendo que ele é assim, fala o que pensa. Isso é bom, é ruim. Adianta ficar criticando?”.

Pedido de impeachment

O deputado federal e ex-aliado de Jair Bolsonaro Alexandre Frota (PSDB-SP) disse que o compartilhamento do vídeo de manifestação contra Congresso e Senado foi a gota d’água e que  entrará com um pedido de impeachment do presidente. “Eu acabo de solicitar a uma junta de advogados que, diante dos fatos, ameaças e do disparo do vídeo do celular dele… Vou entrar com o impeachment, vou assinar”.

Mentiroso

Mais Frota: o deputado garante que está muito decepcionado com a atuação do Chefe do Governo. “Bolsonaro prometeu que sempre lutaria pela democracia. Mentiroso. Ele está abrindo uma crise institucional”. E completou: “Não tem direita, esquerda ou centro. Temos que nos juntar e mostrar que é inaceitável isso que ele está fazendo. Tomara que ele não coloque a culpa em um filho ou em um assessor dizendo que não foi ele quem disparou o vídeo”.

Não, por enquanto

O ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos garante que  Sergio Moro, da Justiça, não será candidato à Presidência da República em 2022. “Ele não tem esse sonho. O que ele quer ele quer, e gostaria, é ser ministro do STF. É o óbvio. Por exemplo, eu nunca pensei que eu ia ser um general. Você chegar para um coronel, ele tem o sonho de que ser embaixador ou general? Ele vai responder, ele quer ser general. O Moro? O sonho dele, juiz, o ápice da carreira dele é ser ministro do STF, ele não tem intenção de ser político”.

Lembrança

O presidente Jair Bolsonaro passou alguns dias do Carnaval no Guarujá. Por lá testou sua popularidade, saindo para caminhar, onde conversou com a população, apertou a mão e tirou algumas selfies. E também andou de moto e tirou algumas fotos. Uma das fotos tirada, ele posou com sua moto em frente ao edifício Solaris, onde ficava o triplex de Lula.

De fora

O ministro da Economia, Paulo Guedes, distribuiu um comunicado para sua equipe dando ordem para que todos que trabalham no seu ministério saiam dos grupos de WhatsApp de discussões políticas. Guedes teme que a participação dos integrantes da pasta nestes grupos cause ruídos na tramitação das reformas ou emendas de interesse econômico no Congresso.

Mais Twitter

No Twitter, Bolsonaro volta à Bíblia: “O que leva parte da imprensa a mentir, deturpar, caluniar, enfim, atentar contra o Brasil 24 por dia? Abstinência de verba ou medo da verdade. E pelejarão contra ti (citando Jeremias), mas não prevalecerão contra ti porque eu sou contigo, para ti livrar (sic) diz o Senhor”.

Quem paga

Os organizadores da concentração do dia 15 de março querem apoio financeiro de Luciano Hang (tem 135 lojas Havan) e de Winston Ling. Ele é um investidor e empresário brasileiro que mora em Hong Kong e é o presidente do Conselho de Administração da Petropar, Sheun Ming Ling, que importa e distribui com exclusividade produtos tipicamente brasileiros na China.

Quem foi

A jornalista Vera Magalhães, primeira a noticiar que Jair Bolsonaro enviou mensagens convocando para a manifestação de 15 de março, foi procurada por ministros do governo que queriam saber dela quem vazou a informação. O ex-deputado Alberto Fraga, amigo de Bolsonaro, que disse ter recebido os vídeos, diz que o primeiro que ela exibiu, ele não havia recebido, tinha recebido outro. Resumo da ópera: nove entre dez do governo acham que Fraga vazou mesmo.

Favorito

São cotados para a primeira vaga no STF André Mendonça, da AGU e o ministro Humberto Martins, corregedor nacional de Justiça. O favorito, contudo, é Jorge Oliveira, ministro da Secretaria geral do Governo que, aliás, não é “terrivelmente evangélico”.

Frases

 “Essa gravíssima conclamação revela a faze sombria de um presidente que desconhece o valor da ordem constitucional.”

Celso de Mello, ministro do STF