Cruel realidade inspira O Preço da Verdade

882

Saí do cinema, chegando em casa corri até a cozinha para jogar no lixo uma frigideira de Teflon. Ao se ver O Preço da Verdade (Dark Waters, título original mais adequado), alguma atitude há de se tomar mesmo. A vontade que o filme transmite é a de maior militância ambiental, mas, por enquanto vai-se a frigideira. Cada um faça sua parte.  Mark Ruffalo, como ator e produtor, já está fazendo.

O Preço da Verdade, estreante da semana, conta a história real de uma cidade norte-americana envenenada por produto químico (C8) despejado no solo por uma poderosa empresa, a DuPont. O C8 é um dos componentes do antiaderente, aplicado nos utensílios de cozinha e nos tecidos à prova d’água e de tira-manchas, como carpetes, fraldas, travesseiros.

Desde 2005 já se sabia que a DuPont respondia na justiça pelo tratamento de 3.500 pessoas com câncer. The New York Time e The Intercept noticiaram o caso na época. Mas enquanto um filme não reforça a denúncia a gente não se dá conta do tamanho do problema. O roteiro até foi extraído de noticiário, mas parece que a arte cumpre um papel mais emotivo, sei lá. Meu desapego com a frigideira foi imediato (medo!).

Mark Ruffalo interpreta o advogado que enfrentou (e enfrenta ainda) a multinacional. Desde 1998, Rob Bilott, advogado ambiental e sócio do escritório Taft Stettinius & Hollister, trava uma batalha judicial contra a DuPont. Interessante: seu escritório havia se especializado em defender as indústrias petroquímicas. Mas, comovido, enfrenta a DuPont ao representar um fazendeiro de West Virginia, que via suas vacas morrerem sem explicação. Ali perto, a DuPont fez um aterro de lixo (tóxico), contaminando água de abastecimento.

 O expectador, entretanto,  não estará diante de um documentário porque a opção do enredo (roteiristas Matthew Carnahan e Mario Correa)  é acompanhar os desafios de Bilottt  para demonstrar as falcatruas da empresa. Seu drama é no trabalho, mas tem simpatia do sócio (Tim Robbins), na rua e no lar (a esposa é vivida por Anne Hathaway). Por fim, a comedida direção de Todd Haynes sinaliza um grande respeito pelo tema. E que a frigideira vá pro lixo!