A Cia de Arte Crisálida, com direção de Rafael Camargo, vai ao palco, nesta quinta-feira, estreando a peça Estrangeiras – Sobre Lugares que Nem Sabemos que Existem. As atrizes Marcilene Moraes, Cléo Cavalcantty, Edith de Camargo e Karla Fragoso se propõem a refletir o tema identidade, assunto de natureza intangível. O espetáculo inspira-se em dois livros e um filme.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman que discute as noções de identidade no “líquido mundo moderno” no livro/entrevista Identidade de Benedetto Vecchi norteou o trabalho. Ele diz:  “O pertencimento e a identidade não possuem a solidez perpétua, mas sim a finitude de um mecanismo que exerce um poder de transformação contínua. As identidades estão em constante trânsito, provenientes de diversas fontes, quais sejam aquelas disponibilizadas por terceiros ou acessíveis através de nossa própria escolha”.

”Daquilo de que os outros não sabem sobre mim, disso eu vivo”, assim começa a outra obra que serviu de referência ao projeto, o livro A Sociedade da Transparência do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han. A frase é de Paul Handke.  De acordo com o escritor, a obsessão com a transparência manifesta-se não quando se procura a confiança, mas quando esta desapareceu e a sociedade aposta na vigilância e no controle.

Outra fonte de inspiração foi o filme Uma Vida Iluminada (2005), de Liev Schreiber, um road movie que mostra a trajetória de Jonathan, um judeu norte-americano colecionador de coisas que sai em busca da mulher que pode ter salvado seu avô dos nazistas, na Ucrânia. O longa emociona pela delicadeza com que trata a busca do passado para entender o presente, a procura das origens da família para compreender a própria história, e a amizade possível entre pessoas de culturas diferentes. Fala sobre o Holocausto e é marcado pela alternância entre tensão e conciliação das diferenças, abertura e fechamento ao outro, exibindo as nuances dos vínculos formados a partir deste encontro.

“O ponto de vista do nosso olhar é estrangeiro, de estranhamento. Abordamos o sentimento de não pertencimento seja individual ou coletivo. Falamos sobre situações simples da vida, em que nos sentimos “estrangeiras”, em nosso próprio país, cidade, casa e até mesmo em nosso corpo”, conta a atriz e produtora do projeto Marcilene Moraes, criadora da Crisálida Companhia de Arte, em 2012, tendo como foco a linguagem contemporânea.

“Acho que é muito pertinente falar sobre esse assunto neste momento onde se vê o drama de milhares de imigrantes refugiados no mundo e os conflitos recentes por conta de intolerância de raças, religião, ideologias e gêneros em nosso país”, ressalta.

Rafael Camargo  propõe uma encenação contida, resultado da pesquisa que desenvolve há mais de uma década sobre o teatro da inação. “As estrangeiras curiosamente perguntam, poeticamente questionam, humanamente percebem a dificuldade de ser e estar. De certa forma falamos sobre solidão”, adverte o diretor. “São mulheres atemporais e seus não lugares em cena.  As repetições de diálogos, a circularidade dos pensamentos, a investigação das estruturas corporais, desenham a forma e imprimem a consciência deste não lugar”, complementa.

Agende-se: estreia nesta quinta dia 25, às 20h, no Espaço Obragem(J úlia da Costa, 204 – São Francisco). Temporada até 26 de maio, de quinta a sábado, às 20h, e aos domingos, às 19h.   Classificação: 16 anos. Ingressos a R$ 20 e  R$10.

(Fotos de Elenize Dezgeniski)