Em meio às discussões sobre a necessidade de modificar os hábitos de consumo e buscar novos meios sustentáveis de produzir moda, alguns sofismas vêm sendo repetidos com muita frequência, sem qualquer compromisso com a verdade.

Um deles é o histrionismo contra o uso do couro natural na indústria têxtil em contraposição às “virtudes” do couro conhecido como “eco”, “vegan”, “faux”,couro verde“courino”, “ecoleather”, e sua sustentabilidade. O emprego maciço desse material artificial encontra sua justificativa no fato de dispensar a pele de animais em sua produção, sendo, portanto, ecologicamente correto. As duas matérias-primas mais largamente utilizadas para sua fabricação são PVC – policloreto de vinila, popularmente conhecido como vinil, o PU – poliuretano, ambos derivados de petróleo. Muito embora sejam uma alternativa ao couro natural, não podem ser considerados ecológicos ou sustentáveis.

Erroneamente vem se denominando e vendendo peças em couro sintético, produzidas a partir desses derivados de petróleo como alternativas ecológicas, ao argumento de que não são fabricados a partir do sacrifício de animais e portanto, estariam em sintonia com os princípios da moda ética e sustentável. Nada mais falso.

Em primeiro lugar, artigos elaborados a partir de material sintético sequer poderiam designar-se como couro, pois, esta prática confunde a percepção do consumidor, levado a acreditar que está adquirindo produtos de couro natural. Couro, por definição, é a pele que reveste a carne dos animais. No Reino Unido, somente peças de origem animal podem ser assim denominadas. Não se reconhece a expressão “ecoleather” ou “vegan leather” para os artificiais. Os tecidos sintéticos, por mais assemelhados à textura do couro não podem empregar essa denominação, pena de violação às regras de proteção ao consumidor, que, normalmente não possui conhecimento para identificar as diferenças. No Brasil, a Lei 4.888, de 9/12/1965 proíbe o uso da expressão couro para produtos que não sejam obtidos exclusivamente de pele animal.

Além do mais, as desvantagens do material artificial acabam ultrapassando as vantagens, já que, por tratar-se de sintético de compostos derivados de petróleo, utilizam inúmeros químicos em seu processo produtivo, emitem enormes quantidades de CO2, são altamente poluentes, além de demorarem centenas de anos para se decompor na natureza e infestarem o meio ambiente com os micro plásticos, substâncias quase invisíveis que vem sendo encontradas nos rios e oceanos e, infelizmente, no aparelho digestivo de criaturas aquáticas. O movimento Greenpeace já classificou o PVC como o plástico mais danoso ao meio ambiente.

Por outro lado, o couro natural, considerado ética e politicamente incorreto, é umas das indústrias mais regulamentadas no mundo, sendo os artigos fabricados a partir do produto secundário da indústria alimentícia, geradora de 8 milhões de pele bovina anualmente no mundo e que iria para o descarte, caso não aproveitada pela indústria da moda.  A grande crítica que se faz ao couro natural é quanto aos impactos ambientais dos seus processos de beneficiamento com altíssimos volumes de água e os produtos químicos utilizados, nocivos ao meio ambiente e à saúde humana. Porém, há centenas de projetos e estudos para aprimorar cada vez mais essa cadeia produtiva, tornando-a mais sustentável.

Atualmente, são pouquíssimas as alternativas verdadeiramente veganas e ecológicas. O piñatex, conhecido como o couro do abacaxi, foi desenvolvido pela designer espanhola Carmem Hijosa, consultora para empresas de artigos de couro. O piñatex é formado a partir do caule e das folhas, subproduto da colheita do abacaxi, que, ao invés de descartado, é ressignificado e encontra nova destinação. Além do mais, é 100% biodegradável e sustentável, sendo usado na indústria da moda, automobilística e decoração. Testes estão sendo feitos também com o couro de Kombucha, bebida fermentada a partir do chá preto ou verde. As bactérias utilizadas na fermentação, em contato com o chá produzem uma película de celulose que forma um material flexível, semelhante ao couro natural, mas cuja durabilidade não é satisfatória. A cortiça é ainda considerada a melhor opção, pela sua resistência, flexibilidade e sustentabilidade da cadeia produtiva, pois não é necessário cortar o sobreiro para produzi-la.

O presente artigo não pretende defender uma ou outra posição, mas apenas chamar à reflexão sobre a importância cada vez maior da informação como a grande arma do consumo consciente.

Ana Fábia R. de O. F. Martins

Advogada, Pós-Graduada em Direito e Negócios Internacionais e Especializada em Direito da Moda.

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