SYLVIA COLOMBO
BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) – O personagem Coringa anda preocupado com os problemas da América Latina. Participou das eleições na Argentina e também foi visto nos protestos no Chile e no Equador pelo menos de forma representada.
Sua última aparição foi num centro de votação na Grande Buenos Aires, em Lanús, no último domingo (20), na eleição argentina.
Um cidadão apareceu diante da mesa para recolher seu envelope para votar, vestido e maquiado como o personagem encarnado pelo ator Joaquin Phoenix no filme dirigido por Todd Phillips. Entrou no quarto escuro, escolheu as papeletas de seus candidatos e saiu. Diante da urna, fez os gestos típicos do Coringa, fechou o envelope, e depositou seu voto com uma gargalhada.
Embora não seja permitido pela Justiça Eleitoral do país –o cidadão tem de votar sem óculos, máscaras ou maquiagens que prejudiquem sua identificação– o Coringa pôde exercer seu dever cívico.
Não é a primeira vez que ele dá suas caras pela América Latina. Nos protestos contra o presidente equatoriano, Lenín Moreno, no início do mês, a reportagem presenciou o uso da máscara do Coringa por parte de um adolescente de classe média que, com um grupo de amigos, foi marchar junto aos indígenas pelas ruas do centro de Quito.
Agora, do Chile, surgem pelos meios locais várias imagens do Coringa. Começaram a aparecer primeiro por meio de máscaras, usadas por estudantes que saltavam as catracas para não pagar o bilhete do metrô –o aumento da passagem foi o estopim do protesto. Depois, surgiram também pessoas com o rosto maquiado em casa, ou simplesmente com uma bola vermelha no nariz. Em algumas estátuas e locais públicos, foram pichadas a frase: “We are all clowns” (somos todos palhaços).
Os jovens parecem ter visto no Coringa um herói sintonizado com as causas em questão por aqui. Ou seja, um sujeito desempregado, que vive com a mãe, e sofre com os problemas sociais da imaginária Gotham City. O Coringa responde à realidade violenta e hostil que o rodeia, o que parece ocorrer com os jovens de classe média e baixa das cidades latino-americanas.
Em entrevista ao francês “Liberation”, a historiadora Mathilde Larrère disse que “uma vez que revoluções são feitas pelas classes trabalhadoras, se utilizam os elementos de sua cultura e de seu momento”.
O escritor e ensaísta argentino Diego Stulwark diz que o uso do Coringa nos protestos na América Latina está relacionado ao fato de que “o personagem tem um sintoma, o de não saber obedecer ao mandato neoliberal sobre quando rir e quando chorar. Seu riso é como uma dor impossível, que capta muito bem situações que todos nós temos: querer aproveitar o mundo e ao mesmo tempo rebelarmo-nos, porque sabemos que não nos encaixamos no sistema, ao mesmo tempo não sabemos como romper com tudo.”