por Claudia Queiroz

Uma das primeiras palavras que uma criança fala é ‘não’. Provavelmente porque não pode subir no lustre, saltar da banheira ou morder o gato, …, e tantos outros exemplos de situações quase catastróficas que experimenta diariamente. Ouve a palavra NÃO em todos os tons e volumes o dia inteiro, até crescer e aprender a fazer escolhas. Mas até lá (e ouso dizer inclusive lá) cabe aos pais a manutenção do posto de balizadores de limites. Dizer ‘não’ é um grande exercício de amor, além de fenomenal semente de autoestima.

Vou tentar explicar melhor aonde quero chegar. Preservar a proteção de alguém parece ser o bê-á-bá desta lição. Educar é uma tarefa árdua, difícil, constante. Mês passado, uma amiga descobriu que o filho de 16 anos estava experimentando drogas. Ele fez de conta que o lapso tinha sido como uma ‘brincadeira de autoafirmação’ com os amigos, mas diante de problemas na família com dependentes químicos, a luz de alerta acendeu sonora e alarmante.

Ela disse ao moleque:

-Não te criei pra isso! Você quer ficar como aquele tio ‘tanzinho’? Ou você acha que ele é só bobo?

O rapaz arregalou os olhos e teve o segundo tempo da corretiva com o pai, que precisava acordar de madrugada para pegar estrada e viajar a trabalho. Perto das 3h foi quando despertou o filho com a intimação do convite para a viagem. “Ele precisava aprender como é ‘ralar’ para conseguir ganhar dinheiro e sustentar uma família”, defendeu o pai educador, que passou várias horas do trajeto na estrada insistindo no que seria entrar ‘pro outro lado da força’. Uma importante questão a se pensar é ‘esse convite para viajar e conversar com o filho’ não teria sido melhor se acontecesse antes?

O fato é que pais atentos não fazem ‘vista grossa’… Percebem a profundidade do abismo e procuram impedir o perigo com um barulhento ‘não’ naquele momento X crucial que pode mudar pra sempre o destino do filho.

Em outra ocasião, soube de uma mãe que sugeriu ao filho tentar encontrar no departamento de Achados e Perdidos da escola, um moletom maior, para que não precisasse comprar novo. Fiquei surpresa, enojada, …, e confesso, não é ficção, mas uma espécie de amostra grátis de corrupção nascida dentro de casa.

Nossos filhos não aprendem apenas com o que ensinamos ou dizemos para eles. Refletem o que somos e fazemos, numa espécie de espelho ético e moral. É claro que a formação de caráter tem outros fatores incluídos, inclusive influências externas. Mas ter coragem para dizer ‘não’ é algo que nos engrandece e pontua o errado. Eu seria injusta em incentivar ou justificar o exagero do ‘não’ dos pais medrosos, que querem evitar que os filhos experimentem suas vidas… São categorias diferentes de pais, esses que geram filhos geralmente ainda mais inseguros e infantilizados.

Dizem os especialistas que frustrar um filho é treiná-lo para as batalhas da vida. Os ‘mimados’, que crescem com facilidades, acabam como ‘aleijados emocionais’, com autoestima tão frágil, que precisam da aprovação automática do senso comum para não estilhaçarem o amor próprio em mil pedaços. Ou de drogas para sobreviverem ao próprio pesadelo construído.

A grande questão é aprendermos a limitar os erros e incentivar tentativas de acerto, começando por nós mesmos! Esta parece ser a chave mágica da renovação de vida e melhora contínua da evolução da alma. Definitivamente, o ‘NÃO’ é uma palavra de Deus, que merece todo o meu respeito, equilíbrio e cuidado. Afinal, onde tudo é permitido…

*Claudia Queiroz é jornalista.