A moda não é um negócio que vende apenas roupas. A moda também vende identidade. Por meio dela, expressamos quem somos, como nos apresentamos ao mundo e nos identificamos com ele, dentro do contexto social, econômico político e cultural.  A moda pertence à categoria da economia criativa, e a criação de moda é uma forma de expressão artística.

Modernamente, conquistamos o direito de nos vestirmos da maneira como desejamos, no estilo que mais nos agrada, conforme nossa personalidade, certo?  Relativamente. E se existisse um grupo de pessoas capazes de prever o que queremos, mesmo antes de querermos?

Com o surgimento do fast fashion, das mídias sociais, a criação de milhares de novas marcas de moda, e, de consequência o acirramento da concorrência pela atenção dos consumidores ávidos por novidades, incorporou-se novo player ao mercado da moda: as chamadas agências de previsão de tendências, ou trend forecasters, que  passaram a ser utilizadas com mais frequência a partir dos anos 2000. No Brasil, sua presença aumenta a partir de 2014, coincidindo com a forte emergência da plataforma de mídia social Instagram, a consagração do marketing de influência e a ascensão dos KOL – Key Opinion Leaders, os chamados influencers digitais.

Segundo Mahir Can Isik[1], fashion buyer para Tommy Hilfiger, os primórdios do conceito do trend forecasting se encontram nos anos 30, na área rural de Iowa (EUA), quando um pequeno grupo de pesquisadores começou a observar como métodos inovadores de agricultura surgiam e eram adotados entre comunidades rurais distintas. Os primeiros fazendeiros a adotarem os novos sistemas pertenciam a um grupo menor, com níveis de escolaridade mais altos e proprietários das maiores áreas de terra. Posteriormente, seus métodos eram reproduzidos pelos demais fazendeiros. Essa análise elaborada pelos pesquisadores foi o embrião do que se chamou de pesquisas de previsão de tendências, dando início ao um novo nicho de mercado: o das agências de análise e previsão de movimentos sociais, econômicos, políticos e culturais que passam a levantar informações e pesquisar dados em vários áreas: tecnologia, agricultura, alimentação, turismo, hotelaria, negócios, e, também na moda…

Nos últimos anos, essas agências têm exercido um papel preponderante no mercado fashion, ao ponto de uma única realizar pesquisas para 12000(doze mil) marcas. A acirrada concorrência do setor tornou a segurança e a previsibilidade ativos muito importantes para essas indústrias. As trendforecasters e coolhunters oferecem dados e pesquisas para prever praticamente tudo: cores da estação, tons de cabelo, maquiagens, fragrâncias, etc., auxiliando em todos os aspectos da criação, desde o design, escolha de tecidos, texturas, cores, estilos, e até mesmo na seleção de locais para instalar pontos de vendas. Muito conveniente para as marcas de moda, que por meio de profunda pesquisa minimizam o risco de lançarem produtos que não venderão.

Porém, quando milhares de marcas utilizam os dados de uma única agência para orientar a criação de suas coleções, esses organismos deixam de ser meros observadores, passando a criar e ter o poder de ditar tendências. De pesquisadores de tendências – trend forecasters transformam-se em criadores de tendências – trend creators.

E, no anseio de fazer “apostas de estilo certas” as marcas se tornam exageradamente dependentes desses estudos, dados e previsões, elevando-os ao status de verdades quase absolutas.

A consequência perceptível é que, a essência da produção de moda, forma de expressão da criatividade humana por excelência, se transforma em previsível e repetitiva, e o papel do designer, do estilista criativo que busca a inspiração verdadeira, se torna irrelevante quando comparado à probabilidade de um estouro de vendas.

Para nós, consumidores, o que sobra é a perda de individualidade e, para as marcas, a renúncia à liberdade criativa, à espontaneidade, fazendo com que um processo genuíno de pura inventividade, criação, espontaneidade e interação humana seja reduzido a estimativas, pesquisas, levantamentos e cálculos. As agências de previsão de tendências estão para o mercado da moda hoje como a agência Bloomberg para o mercado financeiro.

Mas, a moda não é uma ciência exata e, certamente, há de se reinventar. Ainda há espaço para a criatividade humana e para o entusiasmo com o novo, o ousado e diferente.

Ana Fábia R. de O. Ferraz Martins

Advogada – Especialista em Direito e Negócios Internacionais e Especializada em Direito da Moda.

[1] How companies predict fashion trends and kill individuality | Mahir Can Işik | TED Institute