IGOR GIELOW
FOLHAPRESS – Acuada pela maior assertividade militar da Rússia de Vladimir Putin, a pacata Suécia embarcou em um programa de rearmamento que busca tentar dissuadir eventuais aventuras do Kremlin.
No mês passado, o governo anunciou que irá instituir uma taxa bancária para financiar um aumento de 35% em seu orçamento militar de 2022 a 2025, chegando ao equivalente a US$ 7,7 bilhões (R$ 32 bilhões), ou 1,5% do Produto Interno Bruto do país.
Nesta segunda-feira (30), a Marinha anunciou a reativação do quartel-general de Muskö, uma enorme instalação subterrânea da Guerra Fria capaz de suportar ataques nucleares.
Os suecos gastam hoje 1% do PIB com defesa. “Nossa realidade estratégica mudou”, disse o ministro da Defesa, Peter Hulqvist, no lançamento da versão destinada ao Brasil do caça Saab Gripen, em Linköping, em 10 de setembro.
O avião ganhou uma encomenda de novas 60 unidades para a Força Aérea Sueca, cortesia daquilo que alguns veem como exagero do governo –a coalizão de sociais democratas e verdes é minoritária, mas recebeu apoio da oposição.
Principal afetada pela ideia do governo, a associação dos bancos suecos criticou a medida, que também foi vista com certa desconfiança nas ruas.
Mas o temor oficial é tanto que, em 2018, o governo fez o que não fazia desde 1961: distribuiu panfletos a todos os suecos com orientações em caso de invasão estrangeira.
Abrigos nucleares foram reativados, e em 2017 o alistamento militar voltou a ser obrigatório. Além disso, em 2015 foi iniciada a militarização da estratégica ilha de Gotlândia, no Báltico, que seria o alvo óbvio em caso de uma guerra entre Rússia e Ocidente: ocupada, ela poderia abrigar sistemas de mísseis.
Com isso, poderiam “fechar” o espaço aéreo e evitar reforços à Suécia. “Isso tudo é paranoia para trazer mais tropas contra o oeste da Rússia”, afirmou Mikhail Barabanov, analista militar russo do Centro de Análises de Estratégias e Tecnologias.
O país está numa situação peculiar. É parte da União Europeia, à qual aderiu em 1995 rompendo tradição isolacionista, mas não está na Otan.
Assim, ao contrário das ex-repúblicas soviéticas do Báltico e da Polônia que estão na aliança militar ocidental, se fosse agredida por Moscou, não haveria obrigatoriedade de defesa pelos aliados.
No ano passado, Mikheil Saakashvili, presidente da Geórgia na guerra que perdeu para a Rússia em 2008, disse à Folha que a situação pintava um alvo na face da Suécia, expondo o país nórdico.
Pode parecer alarmismo, mas Saakashvili anteviu a tomada da Crimeia pelo Kremlin em 2014 e a guerra civil no leste ucraniano quando poucos acreditavam nisso.
As duas operações militares e a ação russa para salvar a ditadura de Bashar al-Assad na Síria, fora acusações de ciberataques no Báltico, são citadas pelo governo e analistas como prova de que Putin deve ser visto como ameaça.
Pensa assim Mikael Hölmstrom, do jornal Dagens Nyheter. “Não é medo, mas uma adaptação a uma situação de segurança ameaçadora”, disse.
Ele lembra que o oba-oba do fim da Guerra Fria em 1991 relaxou os políticos suecos, “e isso foi ingênuo”. Pela tradição não alinhada, o país tinha a quarta maior Força Aérea do mundo na época da disputa entre americanos e soviéticos.
Nos anos 1990, as Forças Armadas caíram de 850 mil homens disponíveis para os atuais 50 mil, 30 mil deles em serviço ativo. O gasto com defesa caiu de 2,5% do PIB em 1988 para o 1% de hoje.
Segundo relato de Hölmstrom, o Exército perdeu 93% de suas unidades e equipamento, a Força Aérea, 85%, e a Marinha, 72%.
A sofisticada indústria de defesa do país, com a Saab à frente, apostou em exportação para sobreviver: hoje entre 65% e 85% do que produz visa o mercado estrangeiro.
“A guerra não pode mais ser excluída”, afirmou o Comitê de Defesa do Parlamento.
Geograficamente, a Suécia fica numa espécie de corredor para um eventual ataque russo ao norte europeu.
Voltou a apostar no poderio aéreo e está lançando novos submarinos para reforçar sua frágil posição naval.
Além disso, tem estreitado a cooperação com a Otan, e participou do maior exercício militar da aliança em décadas em outubro passado, quando 50 mil homens treinaram perto da vizinha Noruega.
A Finlândia, outra vizinha que travou uma guerra contra os russos em 1939-40, também estava presente e hoje há um canal direto entre seu Ministério da Defesa e o da Suécia.
Em março, americanos e suecos fizeram simulações de operações anfíbias.
O território russo mais próximo é Kaliningrado, encrave entre Polônia e Lituânia, que possui sistemas antiaéreos e de mísseis. Moscou propagandeia que eles podem “fechar” boa parte do espaço aéreo do Báltico, mas segundo estudo da Agência Sueca de Pesquisa de Defesa, isso é relativo.
As famosas baterias S-400, por exemplo, têm longo alcance, mas contra caças ou mísseis de cruzeiro só seriam eficazes em curtas distâncias.
Seja como for, há outras ameaças. Em 2013, dois bombardeios escoltados por quatro caças russos foram diretamente em direção a Estocolmo, só para voltar no limite das águas territoriais. Era a simulação de um ataque nuclear.