Cinema: Vice é Christian Bale

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Embora destronado por Rami Malek (Freddie Mercury em Bohemian Rhapsody) na recente festa do Sindicato dos Atores-SAG, mas também no páreo do Oscar, Christian Bale está insuperável na recriação do republicano Dick Cheney no filme Vice, que estreia nesta quinta-feira 31. O roteiro e direção, ambos de Adam McKay, são satiricamente excelentes, contudo, a performance do ator é digna de aplausos em cena aberta.

Christian Bale não chama atenção só porque engordou horrores, encarecou e se cobriu de maquiagem. É digno de um Oscar bem reluzente porque o ator some para dar vez ao personagem. O espectador, ao se grudar na carona dele do começo ao fim do filme, não vê Bale nem outros personagens que já viveu na tela, de Moisés a Batman, chegando ao O Lutador- Último Roud, que lhe valeu inúmeros prêmios em 2010.

Mesmo que os americanos nem se lembrem como era (e é) fisicamente o vice-presidente de George W. Bush, logo se esquecem do ator para identificar o político viciado (vício/vice) pelo poder. Maquiavélico: o vice arquitetou a invasão ao Iraque por causa do petróleo (oi, Bom dia,Venezuela), defendeu tortura (cenas que aparecem são realmente do noticiário da época) e até humilhou a filha lésbica.

Para auxiliá-lo na escalada, Cheney contou com a valiosa força da esposa (sensacional também a atuação de Amy Adams) e, principalmente, do congressista Donald Rumsfeld (Steve Carell). Quando Richard Nixon cai em desgraça, Cheney e Rumsfeld são catapultados dentro do Partido Republicano.

Mas Vice não é um documentário político. É um deboche sobre a política dos EUA com pitadas de sangue e lágrimas – do começo ao fim. Aliás, sobre o fim: não deixem o cinema, leiam até o último crédito para verificar que não é mera a semelhança de Trump de hoje com o Bush de ontem. Ainda no fim – faz todo o sentido a trilha musical América, sucesso de Trini Lopez na década de 60:

“ Immigrant goes to America
Many helloes in America
Nobody knows in America
Puerto Rico’s in America”

Se não sabe nem quer saber da história atual dos EUA, se não gosta do humor de Adam McKay (A Grande Aposta), se não se preocupa com os vices-presidentes, nem se importa com as oito indicações ao Oscar, veja o filme nem que seja para admirar Christian Bale – que, por sinal, ao ganhar o Globo de Ouro 2019, assumiu a ironia do diretor ao agradecer ao capeta por esse papel.