Atrações (imperdíveis) para adultos e público infantil estreiam nas telas nesta quinta dia 3.  Como outubro é o mês das crianças, falemos de Angry Birds em primeiro lugar. Mas, Coringa, uau, é o mais inquietante exemplar das HQs levado às telas.

Desenho animado, sequência dos pássaros mais mal-humorados do planeta, Angry Birds 2 é um simpático libelo ao respeito à diversidade e aplausos para o final nada maniqueísta.

Os personagens alados vivem numa ilha em paz, em distância razoável da ilha de seus inimigos, os porcos. Ao meio há um cidadão-pássaro, o Red, que quer ser admirado.  Eis que surge uma segunda ameaça as duas ilhas precisam se unir para não sucumbir. Entretanto, o filme não cai em desfecho fácil – união faz a força, amizade é tudo…etc.  O bom, ao meio da estripulia de filhotes com uma baita cobra (sensacional), é a mensagem de que as aparências se enganam, não muito usual nos enredos para crianças, ou ouça antes o inimigo antes de declarar guerra, o que também é raro até fora da tela.

Impróprio para menores

Agora, vamos ao mais sombrio dos filmes já extraídos das páginas de HQ: Coringa, protagonizado por Joaquin Phoenix em incrível interpretação, nos fazendo a memória oscilar a todo instante entre Jack Nicholson (1989) e Heath Ledger (2008), atores que fizeram o vilão de forma magistral, e até Jim Carrey em O Máskara. Mas nenhum deles conceberam risadas tão doloridas quanto a de Phoenix expressando um tique neurológico do personagem.

Nos créditos, o ator Bradley Cooper surge como um dos produtores. Ainda no elenco, antes de chegar ao roteiro, temos Robert De Niro no papel de um comediante de talk show de grande audiência em Gotham Citty (e diante dele, lá vamos nós num passeio pelas lembranças cinematográficas: Taxi Driver e O Rei da Comédia).

Poderia se pensar que este novo Coringa poderia ter toque de bom-humor, já que o diretor e um dos roteiristas é Todd Phillips, da comédia Se Beber, Não Case. Muito longe disso! O filme é taciturno, sem concessão ao diletantismo.

Diante de tempos modernos que viram surgir um Hitler, um armamentista na presidência do mais poderoso país do Ocidente e um político sul-americano defensor de uma arma na mão e nada na cabeça, Coringa mostra como frases de efeito fazem chegar ao poder e como a mídia integra a volúpia das massas. Violento? Sim, mas bem menos perigoso que os supra citados.

Nunca se soube a origem certa desse vilão, o mais cruel dos que enfrentam Batman. Todd Phillips, então, aproveita: dá asas à imaginação, emoldurado pelo universo do super-herói. De início, humano, Arthur Fleck, é um palhaço de rua com pretensão a comediante de tevê, tem doença psíquica indeterminada e uma risada incontrolável. No decorrer da trama, entre problemas sociais de uma Gotham City infestada de ratos e dramas pessoais, ele se transforma em um malfeitor aos olhos atentos e por vezes incomodados da plateia.

É intrigante perceber que há um vilão mais perigoso – porque mais frio que Coringa: o assassino dos pais de Batman. O filme se dá ao luxo de ser instigante por deixar a plateia na dúvida: seria Arthur realmente o irmão mais velho de Bruce Wayne ou seria mais uma de suas fantasias de seu mundo paralelo?

Coringa garante muita análise em uma academia de cinema ou no divã de psicanalista e até no colunismo político. Por aqui, basta saber que o filme ganhou o Leão de Ouro do Festival de Veneza 2019 e com certeza levará Joaquin Phoenix à festa do Oscar 2020.