Morim estampado de flores bem coloridas, a chita nasceu na Índia, teve grande apogeu na Europa, aportou no Brasil na bagagem dos colonizadores portugueses, passou de tecido nobre a ordinário e desde então vive sendo redescoberto pela moda. No recente Minas Trend, vistosa semana de moda realizada em Belo Horizonte, eis que a chita lá estava! E em dois momentos respeitáveis e distintos: no estande da antiga fábrica do tecido e no estande de jovem designer.

Todo chitão (estampas maiores e metragem mais larga) e chita vendidos nas lojas de tecidos do Brasil  procedem da pequena cidade de Alvinópolis, em Minas Gerais; mais precisamente, da Fabril Mascarenhas que dia 14 de junho próximo completará 132 anos. Mas olhe o que a moda faz – a produção de chita mesmo começou nos anos 1970 e a do chitão, uma década depois.

Pela primeira vez a centenária fábrica integra o salão de negócios do Minas Trend,  mostrando muita animação. A jornalista Júlia Mascarenhas Guimarães, uma das herdeiras da empresa familiar mineira, justificou: “Chita é vibrante, acessível e é versátil: serve como tecido de festa do interior a uma peça principal no desfile da passarela. E, no Minas Trend, plantamos mais uma sementinha entre os estilistas e designers”.

 Alexandre Vieira Marques, diretor comercial, garante que a fábrica mineira é a única a abastecer as festas juninas e as casas de decoração do país. “Vendemos em todos os Estados, do Oiapoque ao Chuí”. A produção mensal gira em torno de 800 mil metros. Mas, para o Nordeste, já houve venda de um milhão de metros só para as quadrilhas de São João.

A Fabril Mascarenhas faz novas estamparias de dois em meses, todas desenhadas a mão. Estampas pequenas para a chita e as grandes para o chitão.

A chita vem sendo usada em vestidos, chapéus, bolsas, alpargatas, como base e também em aplicações bordadas e rebordados com pedrarias, além da decoração de interiores. No próprio salão de negócios, um exemplo se encontrava a poucos metros de distância. No estande coletivo da Codemig-Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais, a designer Isabele Sá, também estreante no evento, expõe suas bolsas – de chita!

Isabele Sá não faz mais do que vinte bolsas por semana. Tudo manual. “As peças são feitas de papel duplex, dentro da técnica da cartonagem, e forradas com chitão, sem uso de máquinas”, explica. A maioria dos modelos com chita tem aplicação bem bordada.

No interior das bolsas, uma etiqueta informa quanto tempo demorou para ser feita. Explicação porque tudo é manual, sustentável, prática adotada desde o início, em 2016. “Comecei fazendo bolsas e sapatos para mim, depois para amigas e passei a vender pela internet”, lembra. Hoje é marca, Sá Handbags Designer, com ateliê sediado em São Lourenço, cidade das águas.

“Eu me identifico muito com a chita. Acho um tecido alegre, nossa essência, a cara do Brasil”, proclama Isabele. Ao seu lado, o noivo, Diego Ferreira Coffy, até já “vestiu a camisa” – é de chita!

No estande da Fabril Magalhães, onde depois as bolsas da designer foram passear e posar para fotografia, por coincidência, Júlia  Magalhães também havia dito frase semelhante: “A chita é a cara do Brasil. Essa estampa traz a alegria que o estrangeiro identifica em nós”.

De pronto, alguém filosofou: “Nesses tempos nebulosos, o Brasil está precisando ficar com a cara da chita”.