Embaixador chileno Fernando Schmidt visitou o Paraná nesta semana

Fernando Schmidt assumiu o cargo de embaixador do Chile no Brasil pela segunda vez – a primeira foi em 2012. Falando português com fluência, Schmidt visitou o Paraná nesta semana. O Chile vive um momento de forte expansão comercial e de crescimento interno, com investimento maciço em infraestrutura. Uma das razões da visita do embaixador chileno ao Paraná e a representantes do governo do Estado é o aumento de relações comerciais, tanto do Chile para o Brasil como no sentido inverso. Em sua passagem por Curitiba, Fernando Schmidt deu uma entrevista exclusiva para o Diário Indústria&Comércio.

I&C – Qual o motivo de sua visita ao Paraná desta vez?
FS – Foi uma visita muito produtiva. Tive a oportunidade de visitar a planta da Arauco, em Ponta Grossa, que é um investimento chileno muito importante, aqui no estado do Paraná. Também tivemos a oportunidade de ter conversas importantes com membros do governo do Paraná. Também estivemos conversando com empresários e representantes da Fecomércio.

I&C – Qual o montante de investimentos do Chile no Brasil nos últimos anos?
FS – Nossa estimativa é de investimentos na ordem de US$ 32 bilhões. O Chile é o principal investidor latino-americano no Brasil. A economia chilena está cada vez mais dependente do que acontece no Brasil. Dez por cento do nosso índice de preços das ações depende do que acontece no Brasil.

I&C – Quais as principais empresas do Chile que estão no Brasil hoje em dia?
FS – Dentre as maiores empresas estão a Arauco, CMPC Celulose, a empresa aérea Latam, Cencosud (varejista), Britanite, a Andina (bebidas), o Grupo Sonda (TI). Temos umas 14 ou 15 empresas importantes com atuação no Brasil.

I&C – Existem também algumas empresas brasileiras que estão investindo no Chile?
FS – Existem sim. Mas investem bem menos do que as chilenas no Brasil. O Chile gostaria de atrair mais investimentos brasileiros, que mais empresas brasileiras atuem no Chile. Por exemplo, o Banco Itaú. Ele é responsável praticamente por 12% do sistema financeiro chileno.

I&C – Há muito tempo se discute sobre acordos de livre comércio entre Brasil e Chile e outros países. Como estão estas conversas neste momento?
FS – Voltou-se a discutir o assunto na visita do presidente Sebastián Piñera (no final de abril) ao presidente Temer. De lá para cá já temos duas rodadas de negociações cumpridas, mas há uma terceira rodada de negociações marcada. Isto demonstra velocidade em se chegar a um acordo. E também boa vontade dos dois países. Acredito que vamos assinar um acordo de livre comércio entre Brasil e Chile até o final do ano.

I&C – Há uma negociação para a criação da Via Oceânica, ligando por rodovias o Brasil a portos no Chile, como estão estas tratativas?
FS – Seria um caminho rodoviário entre Porto Murtinho, no Mato Grosso do Sul até portos do Chile, passando por Paraguai e Argentina. Já se fala disto há muitos anos e é preciso se chegar a um consenso para realizar obras de infraestrutura. Já foram feitos orçamentos no Paraguai e no Brasil para se construir uma ponte sobre o Rio Paraguai entre Porto Murtinho e Carmelo Peralta (Paraguai). Os paraguaios também trabalham para asfaltar um grande trecho em seu território. Acho que os dois países estão bem adiantados para que esta obra logo seja executada. Para que esta via seja um caminho comum é preciso ainda capacitar as polícias rodoviárias dos países envolvidos. Assim ela se torna um sistema de transporte que beneficia os países envolvidos. Nossa embaixada estuda ajudar as populações que residem ao longo desta futura ligação. Queremos criar projetos turísticos integrados e estamos já executando o planejamento com a Universidade Federal do Mato Grosso do Sul.

I&C – Esta é a segunda vez que o senhor é embaixador do Chile no Brasil. Seria possível fazer uma comparação entre os dois momentos?
FS – O general Villas Boas (Eduardo Villas Boas, comandante do Exército Brasileiro) me fez a mesma pergunta. É perigoso fazer comparações entre 2012 a 2014 e hoje. Mas posso dizer que o Brasil é um projeto de longo prazo para o Chile. Estamos sempre apoiando o Brasil, pois é um país que tem um potencial enorme para o Chile.

I&C – E qual a importância do Paraná nas relações com o Chile?
FS – Temos empresas investindo aqui. Queremos saber como potencializar isto ainda mais. Queremos fazer a atração de outras empresas chilenas, em especial no ramo do agronegócio. Ou atrair empresas paranaenses para atuarem no Chile. O Chile é o país do mundo que mais tem tratados de livre comércio. Queremos fazer com que produtos do agronegócio paranaense cheguem ao Chile prontos para consumo.

I&C – Há muito tempo que se fala em criar integração comercial nas Américas, mas isto acaba não saindo do discurso. O que falta para isto se tornar realidade?
FS – Acho que falta sempre orçamento. Existe vontade política. Já há o investimento de US$ 32 bilhões do Chile no Brasil, como já falei antes e há uma procura de turistas brasileiros pelo Chile muito expressiva. Hoje cerca de 545 mil brasileiros visitam o Chile por ano. E este número cresce dois dígitos percentuais ao ano. Cada um destes 545 mil turistas que voltam de lá, são 545 mil mensagens que se espalham em seus grupos. Isto tem uma grande importância no relacionamento entre os dois países. Esta procura de empresas e turistas de um país para o outro faz com que os governos de Brasil e Chile tenham quer mais pró-ativos. Eles precisam agilizar o projeto da Via Oceânica e do livre comércio.

I&C – O vinho chileno é um produto que tem chegado com mais intensidade ao mercado brasileiro. Dados da Wines of Chile apontam que no último ano houve um crescimento de 23,5% em volume e 26% em valor no envio de vinhos do Chile ao Brasil. Há algum tipo de incentivo do governo chileno aos produtores de vinho?
FS – Este crescimento de exportação de vinhos chilenos é resultado do trabalho das empresas do setor. É o esforço do setor privado que gerou isto. São produtos de qualidade num preço acessível com estratégias de marketing de sucesso. O segundo objetivo será colocar vinhos de nicho específico e um terceiro patamar deste comércio de vinhos será o investimento em terras no Rio Grande do Sul e de criação de mais vinhedos no Chile.

I&C – Na reunião com o governo paranaense há alguma novidade que possa ser divulgada?
FS – Conversamos sobre muitas coisas. Já tratamos de alguns destes assuntos nesta entrevista. Uma coisa específica que falamos foi sobre pesquisas. Discutimos sobre a difusão da cultura paranaense no Chile. Podemos criar no Chile um museu como o MON – Museu Oscar Niemeyer em Santiago. O Balé de Santiago, hoje um dos mais importantes do mundo, se apresentou em Curitiba nesta semana. Tem outro assunto: hoje cinco linhas aéreas conectam o Brasil ao Chile, especialmente saindo do Rio de Janeiro e São Paulo. Não são cinco voos, mas sim cinco linhas aéreas. Agora será criado um voo entre o Rio Grande do Sul e o Chile. Falamos com o governo paranaense sobre um maior intercâmbio entre estudantes nas faculdades. Acho que é preciso desenvolver um programa de ensino do espanhol no Brasil e de português nos países da América do Sul. Metade da América do Sul fala português e a outra metade fala espanhol. O ensino de espanhol no Brasil e de português nos outros países deveria ser obrigatório. Estes foram alguns temas tratados na reunião com o governo paranaense.