*por Claudia Queiroz

Letras de música sempre marcaram gerações. Minha infância foi influenciada por Vinícius de Moraes, Toquinho, Tom Jobim, Chico Buarque e tantos outros grandes compositores. Histórias que contavam sobre “A porta que fechava tudo no mundo e vivia aberta no céu”; “O caderno do primeiro rabisco até o bê-á-bá e só pedia para não ser deixado num canto qualquer”; “Fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho”; “A moça feia pensando que a banda tocava pra ela”…

Anos mais tarde, os Paralamas do Sucesso mostravam o quanto era legal quem usava óculos; Tim Maia nos encorajava a explorar os sete mares; Lulu Santos a não resistir às paixões, afinal, “quando um certo alguém, desperta o sentimento, é melhor não resistir, …, e se entregar.” Marisa Monte encheu de poesia e ternura gravando “beija eu” ou mesmo chamando a atenção para as artes pintadas nas ruas do Rio de Janeiro, com frases que convidavam reflexões do Sr. Gentileza. Renato Russo, do Legião Urbana, renovava nossa energia quando pedia para “abrirmos a janela do quarto e ver que o caminho era o sol” ou questionando temas sociais importantes ligados à injustiça e à corrupção.

Até aqui, apenas algumas lembranças, mas foram tantas e com tal significado não só para a formação musical de uma geração, como também na consolidação de valores. Mensagens em forma de melodias tinham tudo a ver com a juventude que eu vivia. Repetir tantas letras era um mantra que nos permitia sonhar, viver intensamente e sentir-se alguém especial.

Mas…, parece que tudo mudou na turma das baladas pop atuais. Uma geração inteira cresceu “dançando na boquinha da garrafa” e continua balançando o bumbum com ritmos marcados, compassos nada criativos e letras tão pobres, que seria impossível, ao menos para mim, dedicar uma delas ao meu amado. Verdade! Sou do tempo em que casais ‘tinham uma música’. Ouvi-la e cantá-la era como um hino que sempre renovava o amor.

E agora? Avalio se não é apenas preconceito, mas ouvir funk, por exemplo, causa arrepios muito desagradáveis em mim. Meus ouvidos doem com sons ‘indigestos’. Sentiria vergonha de escrever refrões e rimas das músicas mais tocadas atualmente. Não, não e não! Não é rabugice minha ou velhice precoce. Um estudo recente publicado pelo UOL mostrou como a música brasileira se deteriorou, ficando quase banal. Ao que tudo indica, a culpa dessa radiografia pode estar na massificação cultural e mercadológica das rádios e programas de auditório, como Faustão, Gugu e ‘cia’. Como a audiência deles está despencando, assim como de muitas outras emissoras de TV aberta que apostaram nesse padrão, este pode ser um sinal que tenhamos boas surpresas em pouco tempo. Sim, sou otimista.

Há alguns dias, Matheus, filho de uma grande amiga, e com apenas 6 anos de idade, ganhou a minha total atenção ao pedir:

– Tia, põe ‘Believer’ no seu celular para eu cantar?

Tão logo ‘apertei o play’, ele mergulhou em concentração, respirou…, e sem errar uma palavra sequer, cantou na harmonia de uma letra complexa para a idade dele, que afirmava sobre coisas profundas como ter fé. Ouvi com surpresa e alegria aquele menino pequeno se expor num ambiente público, com pessoas estranhas ao redor. Ele foi bem até o final.

Elogiei, beijei, abracei e amassei o menino que vi nascer. Ele era só sorrisos. Depois ele ainda contou ter passado 12 dias treinando antes de cantar para mim. Sabia que precisaria se dedicar para decorar, planejar seu tempo, persistir nas fugas mentais, treinar o ouvido e assim por diante. Foi emocionante. Essa cena se repetiu por diversas vezes em minha memória. Provavelmente porque acredito nas crianças. Elas são criadoras de tendências.

Músicas afetam intimamente nossas emoções. Quando há boa qualidade possuem, inclusive, funções terapêuticas. As outras são capazes de nos manter presos à mediocridade. E não me refiro à simplicidade dos estilos regionais, que fazem parte de uma cultura, mas daquelas que gritam ausência de valores.

Precisamos estimular e estruturar mais nossas crianças com pensamentos harmoniosos e poéticos, como está acontecendo com Matheus. Diferente dessa geração estagnada em baixo nível emocional-cultural graças a uma enxurrada de hits feitos apenas para o lucro.

Como as crianças são educadas pelos exemplos que damos a elas, só saberão sobre bons sentimentos se as ajudarmos a conhecer e a construir proximidade com a emoção produzida por canções compostas de significados. Importa muito saber, portanto, quais melodias, harmonias e frases cantadas nós adultos mais gostamos de ouvir hoje. Se mantemos ou não a maravilhosa ligação com emoções maiores, aquelas que uniam, quase de modo instantâneo, nossos sonhos e expectativas com a própria vida...

Claudia Queiroz é jornalista.