*por Claudia Queiroz

Canja, banho e cama

Parece até receita da vovó, mas crescemos e continuamos precisando dos cuidados de alimentação, carinho e descanso para nutrir de amor nossa rotina. Sem isso, é como se fizéssemos um balanço com uma conta que não fecha: energia gasta x renovada. Mesmo assim, muitas vezes teimamos em seguir milhões de coisas só porque acreditamos que, agindo desta maneira, construiremos a vida que queremos viver.

Certa vez me chamou a atenção um pensamento intrigante, atribuído a Dalai Lama. “Os homens perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde. E por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem do presente por não viverem nem o presente nem no futuro. E vivem como se nunca fossem morrer…, e morrem como se nunca tivessem vivido”.

Fico imaginando onde está a satisfação em encher a agenda de compromissos, comer qualquer tipo de comida e dormir poucas horas de sono para sustentar uma vida sem curtir as paisagens pelo caminho.

Todos os dias, eu e minha filha Gabriella, de 3 anos, colhemos, com os olhos, diversas flores no trajeto da escola. Prestamos atenção nos ipês amarelos, nas cerejeiras cor-de-rosa, além de todas as outras cores que enfeitam nossas conversas. Não deixo nada nos atrapalhar. O celular fica distante, notícias silenciadas e a playlist de música nem sempre é acionada.

Estou treinando a pequena a se integrar ao mundo, prestando atenção nos passarinhos, que às vezes balançam a cabeça para caminhar…, e até no tédio do sinal fechado. Os psicólogos dizem que isso é importante e classificam como “frustar” as crianças, para que aprendam a esperar. Mas aqui entre nós, existe bastante diversão a ser explorada e construída assim…

Nossos filhos não têm necessidade de ter atenção exclusiva ou de receber estímulos o tempo todo. São naturalmente curiosos. Somos nós que induzimos hábitos que prejudicam o desenvolvimento deles, instalando DVDs no banco traseiro do veículo ou ocupando o silêncio com eletrônicos, que mais parecem promotores de ‘gatilhos de ansiedade’. Meras projeções e toxicidade que herdamos ao longo do tempo.

Estamos ‘acostumados’ ao estresse e a tudo o que conseguimos aguentar driblando as adversidades. Nem sempre percebemos o impacto das escolhas industrializadas no prato, dos efeitos colaterais nos remedinhos automedicados, no excesso de afazeres, na cobrança ferrenha de perfeição com desempenho e prazos ou de tantas outras situações que provocam vulnerabilidade em nossa saúde.

Bem-estar é nada menos que encontrar prazer em alguns momentos do dia, livre de pressões. Uma conversa amigável, ouvir música, ler um livro interessante, dançar livremente, catar conchinhas na praia, experimentar uma receita nova na cozinha, ouvir histórias… Eu gosto de me surpreender, de sentir encantamento pelo inesperado. Dia desses fui convidada para desenhar para um grupo de 20 crianças na escola onde minha filha frequenta. Eles tinham uma mostra de artes para preparar e estavam estudando sobre gibis, quadrinhos…., turma da Mônica.

Assinei por muitos anos a coleção genial de historinhas do Maurício de Souza. Confesso que mergulhar no universo infantil é uma das minhas recargas preferidas… Pois diante dos meus mais novos ‘pupilos’, de 5 e 6 anos de idade, que posavam para os desenhos, diversos balõezinhos surgiam sobre eles, ao menos na minha imaginação.

Um deles disse: “tia, sou muito difícil de desenhar, porque só tenho o queixo da minha mãe. Todo o resto é do meu pai…” Outro pegou o lápis e começou a fazer a minha versão em rabiscos, mas mudou de ideia e investiu em seu próprio autorretrato. Teve o que contou centenas de aventuras de pescaria com o avô, colecionando bagres, baleias, minhocas e camaleões.

Quando dizem para lermos para uma criança (ou fazermos qualquer coisa criativa com elas) é para que nos libertemos da repetição comum dos hábitos que aprisionam tantos ‘certos e errados’ de cada momento e sejamos contagiados com a fantasia despretensiosa do universo infantil. Os pequenos são ótimos professores, enquanto os avós deixam marcas afetivas profundas e inesquecíveis, assim como a sopinha antes de irmos pra cama… Porque todo amor é feito de laços e são eles que desatam todos os nós da vida.

Claudia Queiroz é jornalista.