*por Claudia Queiroz

Como deixar de ser uma pessoa boa para se tornar ainda melhor? Em primeiríssimo lugar, reconhecendo as próprias falhas, medos e limites auto impostos… Para, em seguida, melhorá-los. Não é simples, mas esse é o segredo! Acho que nada é mais interessante que a imperfeição. É a partir dela que podemos evoluir.

Imagine o tropeço de uma modelo que improvisa e conserta a performance na passarela; a quase queda do bebê experimentando os primeiros passos; a palavra dita em público, que foneticamente nos fez engasgar numa letra, sem calar a coragem de seguir forte no tema, …, e a libertação que tudo isso traz na superação consciente. Precisamos deixar a perfeição de lado e dar atenção à leveza de ‘ser como somos’. É disso que estou falando. Ser cada vez melhor!

No cinema, um dos meus filmes preferidos retrata a dualidade de uma grande bailarina ao  interpretar duas facetas principais, com personalidades distintas: uma pura e imaculada e outra cheia de malícia e desejo espelhado no corpo. Cisne Negro revelou o talento da atriz Natalie Portman, interpretando Nina, que em determinadas cenas era coberta de inveja e ao mesmo tempo admiração pela personagem de Mila Kunis, a bailarina que esbanjava graça e naturalidade. O clima competitivo trouxe uma grande lição: a obrigação de sair da zona de conforto, conflitando com o temperamento frágil, a superproteção da mãe, o rigor nos cuidados físicos, mentais e toda a preocupação da busca pela exatidão.

De fato, improvisar só é válido para quem domina a técnica. Fora isso seria irrelevante valorizar a imperfeição. Mas treinar muito para conseguir, melhorar e superar está no pacote diário de evolução.

Anos atrás, em estúdio de gravação, começando um novo programa na TV, eu ficava muito incomodada quando errava um texto. Estava presa ao ‘TP’ – sigla conhecida no mundo televisivo como ‘teleprompter’, um monitor com o texto a ser lido, instalado à frente da câmera. Eu tinha que ler interpretando. Quando finalmente descobri que podia substituir algumas palavras, enquanto falava, um novo mundo se abriu para mim.

O mesmo acontece na dança. Comecei a fazer sapateado adulta, com um grupo de mulheres mais ou menos da mesma idade. Dia desses, penei pra acertar um passo chamado ‘draw back’, que ousa contar o ritmo do tempo da música de um jeito diferente. No momento do desafio de mostrar para as outras colegas o que eu sabia fazer daquele movimento, emperrei. Parecia uma ‘vaca atolada’. Me senti frustrada, justifiquei as tantas faltas recentes, sorri amarelo, travei. Mas na última aula eu consegui! Peguei o jeito e fiquei faceira. Não demorou para querer contar pra filhinha que eu também havia aprendido um passo novo. Ela tem 3 anos e faz ballet.

Parece bobagem, mas ‘aceitar’ os desafios diários garante passaporte para mudanças de fase. Depois disso é que a gente luta, aprende…, cresce e fica ainda mais forte. De nada adianta uma imagem de talento congelada se não pudermos aprimorar, ousar e nos divertir com isso. Porque o sofrimento de não conseguir dura pouco. Basta treinar e esperar o resultado ‘possível’.

Tenho pensado muito em algumas pessoas que conheço e que há anos insistem nas próprias convicções, com verdades instantâneas e certezas nas rotas conhecidas. Elas fazem a mesma coisa, do mesmo jeito e seguem a vida sem grandes expectativas. Não criam ou inovam, nem sofrem, porque acreditam que não há muito o que conquistar. Muitas se esqueceram do que as fizeram brilhas os olhos… Perderam os sonhos?

Quando acreditarmos na própria capacidade, saberemos o que fazer e, muitas vezes, para onde ir. A princípio é desconfortável mudar, transformar a própria realidade. Conseguindo, ainda haverá o que lapidar. Nada é estático ou totalmente seguro para quem quer mais de si. Não digo isso por competição…, mas para propor um novo jeito de fazer as coisas. Inseguro e ruim é permanecer igual. Um pouco de ousadia sempre faz bem.

Por instinto, a ostra, ‘incomodada por um grão de areia’, produz pérolas. Nós também carregamos ‘areia’ como feridas dentro da nossa história. Não somos ostra. Podemos pensar, planejar e, poderosos, transformar medos e tristezas em infinitos tesouros. Só assim deixaremos de ser pessoas boas para nos tornar irresistivelmente ‘melhores’.

Claudia Queiroz é jornalista.