*por Claudia Queiroz

O que fazer com opiniões contrárias às nossas? Debates intermináveis e não construtivos, principalmente quando envolvem política, religião e futebol. Cresci ouvindo para nunca me meter nesses embates. Mas será que só na minha casa esse era um dos mandamentos mais repetidos? Porque discussões são o que mais leio nas redes sociais ultimamente… Verdades opostas, sobretudo e por nada. Da rivalidade dos times adversários ao fanatismo religioso e político, em pontas extremas do radicalismo de uma disputa sem fim. Palavras escritas e faladas de modo irônico ou até bastante agressivo, a todo instante, por qualquer um. Desconhecidos tentando representar grupos e vencer batalhas invisíveis.

Se você também cantou “meus heróis morreram de overdose…, meus inimigos estão no poder”, provavelmente ainda quer uma “ideologia pra viver”, como dizia essa letra do Cazuza. De que valem pontos de vista diferentes? Quando bem conduzidos, para crescer, oras! E isso não é pouco.

Saber sobre o ‘lado de lá’ aumenta meu tato a respeito de como abordar temas espinhosos, sem tomar partido. Melhora meu nível de compreensão sobre aquela realidade que não é a minha. Reafirma ou derruba argumentos construídos. Convida para reflexão de novos posicionamentos, rotas e rumos.

Na minha juventude era comum ouvir críticas sobre as crenças do outro. No quesito fé, discutia-se sobre reencarnação e até detalhes da profecia de quando Jesus voltasse…, como se os mortos fossem levantar dos seus túmulos usando as mesmas roupas do velório. Horas incontáveis de palavras ao vento. Meu time de futebol ganhava e perdia campeonatos e as piadinhas de lado a lado eram sempre muito iguais, quase infantis.

Hoje o tema mais debatido está conseguindo dividir famílias, separar casais, afastar amigos, classificar intelectuais, segregar pensadores, unir ignorantes… Duelos de ‘touchè’ na complexa bola de cristal que pensa com certezas na capacidade própria de prever o futuro do Brasil. Muito além de contras ou favoráveis ao ‘presidente do momento’ estão uma infinidade de verdades rígidas sendo impostas goela abaixo de quem precisa digerir ideias alheias.

Diferenças que poderiam somar, mas não. Deletam, excluem, apagam do convívio social os que encarnam o papel de ‘arrebatadores de ovelhas perdidas’, ou seja, a multiplicação de personagens tentando convencer os que têm outra opinião formada a respeito… Como política, religião e futebol sempre precisaram de platéia, público de massa, para garantir audiência e renda, as mídias sociais são boa oportunidade de treinar ‘palanques’.

Quem escreve quer ser lido, admirado, respeitado. Mas, quando não é, muda de público, sem desistir do palco. Porém, a vida traça panorama cinzento aos que não lucram com essas disputas. Criticar a preferência do outro me faz não respeitar a minha! Sei que meu time de futebol vai cair e subir, participando de campeonatos todos os anos. E se o candidato diferente venceu as eleições para presidência é porque a maioria desejava mudanças.

Discutir posicionamentos e ideias é saudável e completamente diferente de humilhar quem pensa de outro modo, num jogo de troca de acusações. Toda briga começa assim. As bobas e as com desfecho difícil. A gente sabe, portanto, como começa, mas nunca até onde irá chegar…

Por isso, quero propor um exercício sempre que pensar no seu suposto oponente. Faça uma lista de coisas que não gosta no modo dele pensar ou agir, mas obrigatoriamente descreva ao menos três qualidades. É possível que esta ação mostre a você que não vale à pena levar tudo tão a sério. A não ser que esteja no ringue do ‘vale tudo’, onde só dedo no olho é proibido.

Por trás de toda verdade absoluta há muito medo latejando. Este é um sentimento complexo que aparece disfarçado (ou sabidamente escondido) nas situações mais inesperadas. Geralmente a pessoa inflexível é aquela que acha que precisa escolher entre ‘matar e morrer’ a todo instante e, sabendo ou não, faz isso pra se proteger. É a base do instinto de sobrevivência, presente nos animais…, compreensível se ainda vivêssemos nas cavernas.

A partir do momento que temos mais conhecimento sobre outras visões do mesmo assunto, podemos deixar de lado toda essa confusão de sentimentos instáveis, com respostas impensadas, agressivas e impulsivas, para agir com mais controle e direção. Está na hora de aprendermos a pensar e parar de sofrer. Escolha as batalhas sem declarar guerra à toa. O lado de cá da fronteira não suporta mais tanta bomba. Compartilhe ideias e contribua para a construção de soluções. Seja esclarecido. São habilidades para um futuro que merecemos viver agora. Treine sua mente, eu treino a minha e, enfim, venceremos juntos, bem armados, com as nossas maravilhosas diferenças.

Claudia Queiroz é jornalista.