Brincadeira é coisa séria

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*por Claudia Queiroz

Enxergar a vida de olhos fechados é um desafio extra-sensorial. Alguns anos atrás, por causa do encorajamento de uma amiga terapeuta, experimentei tomar meu banho demorado totalmente no escuro. Na época, o vidro do shampoo e do condicionador eram parecidos e tive que distinguir os produtos sem tantas certezas. Errei, óbvio, e tive que repetir a lavagem dos cabelos. Fiz isso dando risada e sem pressa. Percebi texturas, densidades, aromas, espuma, o toque na pele de um modo bem diferente… Foi uma sensação incrivelmente positiva e que aumentou ainda mais a percepção sob meu corpo.

Essa técnica utilizada pela fisioterapia ‘somato emocional’ propõe reequilíbrio através da consciência do que sentimos pelo olfato, paladar, tato, audição e visão. E faz muito sentido provar e testar esses estímulos, independente do momento no qual estamos vivendo.

Aproveitando que as crianças são mais curiosas, nesta semana minha filha, com 3 anos, resolveu colocar uma venda nos olhos e andar pela casa. Apoiei, claro, no entanto cuidando para não se machucar nem esbarrar em nada. Mas também permiti que ela tivesse percepção de onde estava para aumentar a própria noção espacial.

Era hora de ir pra escola. De uniforme e sem enxergar nada, ela se despediu do pai e explorou a sensação de estar dentro do elevador, identificar nosso carro, sentar-se na cadeirinha de assento elevado, ouvir os passarinhos cantando, os carros passando, as buzinas tocando enquanto mantinha seu cachorrinho de pelúcia no colo.

Estava aberta a descobrir novas emoções. Eu narrei o que acontecia no caminho. “Estamos passando por um ônibus amarelo bem grande. As flores roxas das árvores que gostamos caíram no chão e formaram um tapete de pétalas. O céu continua nublado, meio cinza, parece que logo mais vai chover. Agora o sinal fechou filha, ficaremos paradas por alguns instantes.” Então eu espiava a reação dela no banco traseiro e via um sorriso de satisfação naquele rostinho angelical.

A brincadeira não terminou quando chegamos ao colégio e a estagiária veio ao nosso encontro. Achando graça, a moça segurou a mão da filhinha. Elas desceram juntas as escadas, percorrendo vários metros do corredor até chegarem à sala e a “pequena exploradora” cumprimentar os amigos. Bacana identificar cada um deles tocando o rosto, cabelo, ouvindo a voz, distinguindo o perfume… Assisti a cena de dentro do carro, observando o que acontecia.

Infelizmente a rotina de atividades precisava ser restabelecida e a experiência tinha que terminar. Na próxima vez quero que ela experimente almoçar assim. Pelo pouco que sei, esses e outros estímulos sensoriais ajudam no desenvolvimento neurológico. Fico imaginando um milhão de explosões de sinapses dentro desta cabecinha…. Nossa aventura está só começando.

Mesmo assim, já acho extraordinária a vontade que os pequenos têm de descobrir o mundo. Quando bebê, ainda engatinhando pela casa, minha filha sentiu o calor do sol no chão e lambeu o reflexo dele. Acho que estava à procura de um novo sabor. A partir dali criou mais intimidade com o super astro, que ela adora ver “acordar” todos os dias. Com o passar das horas, tentamos identificar se ele está com preguiça de aparecer, com sono, meio bravo, fraquinho e assim por diante.

O vento já foi degustado, as sombras investigadas e o arco-íris que hoje apareceu no teto da sala acabou de ser tocado. Para ela, tudo isso não passa de mais uma opção de diversão. Brinca com as sensações assim como explora seus sentimentos.

Criança pura, estimulada com amor, encontra graça até no que parece invisível para nós. Daí a gente cresce e precisa aprender de novo, porque fazemos praticamente tudo mecanicamente e sem pensar. Que tal se hoje fecharmos os olhos durante algo que gostamos de fazer só para experimentar a emoção das coisas, de outro jeito? Isso faz sentido pra você?

Claudia Queiroz é jornalista.