Blockchain : a solução para uma cadeia produtiva mais ética?

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*Ana Fábia R. de Oliveira F. Martins

Disrupção tecnológica é palavra do momento. Em todo lugar, reflexões, artigos, opiniões, e eventos sobre a indústria 4.0, 5.0, machine learning, IOT, AI, wearables, blockchain e a forma como os novos conceitos e aplicações impactarão vários setores da sociedade, a economia tradicional e a economia criativa, que é o caso da moda.

Já são realidade os tecidos inteligentes, que podem captar informações como frequência cardíaca, gasto calórico e outros dados corporais; bolsas com painéis solares que carregam nossos telefones celulares on the go, guarda-roupas virtuais, enfim há algoritmos para todos os gostos. Mas qual é de fato a grande contribuição da inovação para uma moda mais ética, sustentável e socialmente correta?

Todos os dias temos que fazer escolhas de compra que impactam o planeta. Mas, seja por desinteresse, falta de tempo, ou mesmo ignorância, dificilmente questionamos: a proveniência do produto, Made in…..? , a composição do produto: Made with….? ou a autoria do produto : Made by…? O ato de consumir é automático e as decisões de compra, de acordo com especialistas em marketing e comportamento do consumidor, são tomadas em poucos segundos, motivadas por vários fatores, desde a cor da embalagem, até a associação do produto à imagem de celebridades admiradas, por exemplo.

Mas, essa tendência rapidamente vem se revertendo e a desconfiança das pessoas, em especial da população mais jovem, sobre a origem, composição e forma de produção dos bens que consomem vem aumentando. No entanto, a realidade é que o cidadão não tem acesso a informações precisas sobre a trajetória do produto até chegar às lojas. Não há ainda como verificar satisfatoriamente a autenticidade e rastreabilidade do que se compra.
Com efeito. Cadeias globais de suprimentos como a da indústria da moda são complexas, fragmentadas, longas, voláteis e difíceis de monitorar, pois normalmente estão espalhadas pelo mundo. Quanto maiores e mais intricadas, mais vulneráveis a fraudes e ilicitudes. Uma única marca pode contabilizar mil fornecedores, mas, esse número pode chegar a 20 mil, quando se computam todos os subfornecedores.

Devastação ambiental, trabalho infantil e em condições análogas a escravidão e, no caso da extração de metais nobres e pedras preciosas, financiamentos de garimpos ilegais e conflitos. O consumidor não tem em quem confiar. Este mercado grita por transparência, hoje o grande desafio. E é exatamente neste ponto que a blockchain pode se tornar uma grande aliada, transformando utopia em realidade iminente.

A cadeia de blocos, plataforma de tecnologia subjacente que impulsiona criptomoedas como Bitcoin, blockchain é um sistema digital descentralizado e distribuído de registros que permitem a inserção e reunião de informações que não podem ser alteradas depois de adicionadas. Esta inovação vem sendo gradualmente adotada nas mais diversas áreas, desde a indústria alimentícia até gigantes do setor de energia, passando pelos laboratórios farmacêuticos.

No caso de indústria da moda, dada a imutabilidade dos registros feitos dentro da plataforma blockchain, o consumidor poderá ter acesso a informações confiáveis fornecidas nas etiquetas das marcas sobre a proveniência, composição e origem da mão-de-obra das peças que adquire. É uma base de dados totalmente aberta, imutável e auditável. A transparência, exatidão e veracidade das informações é fundamental, pois, a mera declaração de sustentabilidade socioambiental sem a devida comprovação enfraquece a narrativa da marca, e não convence o consumidor cada vez mais exigente e informado.
De um modo geral, a indústria da moda não se mostra muito inclinada a incorporar a transparência em suas práticas, por várias razões, entre elas a relutância em revelar margens de lucro e fornecedores. Porém, o caminho para a sustentabilidade passa necessariamente pelo comprometimento com a ética, a responsabilidade social e ambiental.

* Ana Fábia R. de Oliveira F. Martins é advogada, especialista em Direitos e Negócios Internacionais.