*por Claudia Queiroz

Deus nos temperou com cores, dons, sons, gostos… Em cada canto do mundo, culturas e idiomas que se misturam para nos tornarmos cada vez mais únicos. Todos diferentes! Mas, na maioria das vezes, agindo como iguais… Pra que? Se a graça da vida está em aprender a respeitar o próprio ritmo de caminhada, sentindo o sabor de cada experiência…

Nunca compartilhamos tanta coisa. Aplicativos de mobilidade urbana, casas provisórias em qualquer lugar do mundo, fotos, ‘playlists’ de músicas e vídeos… Conhecimento espalhando potencial de inteligência, conectando soluções a tudo o que importa. Tudo? Digamos que no universo imaginário isso faça mais sentido.

Apesar da necessidade de estarmos evoluindo para uma versão compacta, sem tantos excessos de coisas e tranqueiras, é comum mantermos a ilusão carregada de lixo virtual. Construímos uma imagem ao longo de toda nossa história, que muitas vezes nos prende a paradigmas ou conceitos, que podem nem mais fazer sentido pra nós mesmos. No entanto, até mesmo o desapego de hábitos e escolhas acontece naturalmente, por meio de mudanças de valores conquistados com maturidade.

Se sairmos do ‘playground’ emocional, aprenderemos a ser de verdade. Não será o apoio de likes, compartilhamentos, “ibope de stories” e coraçõezinhos virtuais que formarão a base sólida de sustentação do “humor próprio”. Sim, estou falando de amor, da única festa surpresa que a gente não fica sabendo antes de acontecer. Do sentimento que espalha altos índices de satisfação e prazer quando mergulhamos no infinito particular e encontramos surpresas profundas que ensinam a beleza da individualidade e a importância de sermos equipe.

Sem querer, acabei falando de um dos meus esportes favoritos: mergulho. Pode parecer estranho, mas ‘mergulhar em si’ segue princípios bem próximos às leis que regem o universo azul. Embaixo do mar, aprendemos a respeitar a inocência do peixe, a inteligência do golfinho, a majestade da baleia, os perigos do tubarão…

Só o abraço do mar justifica o peso dos cilindros, a roupa artificial colada ao corpo, máscaras, colete e nadadeiras que prolongam nossos pés e esperanças. A paixão de explorar um mundo novo, de silêncio, calma e mistério nos permite esquecer tantos ruídos da bagunça rotineira, que envolvem nosso coração sedento de aventura e, em meio a tanto azul, descobrimos que não somos sozinhos.

Sem trocar palavra alguma, uma vez que a comunicação acontece apenas com sinais, precisamos de mais uma pessoa para compartilhar o que vimos. Muitas vezes desconhecida. Saltamos em duplas. Elas sentem e enxergam as coisas que vivenciamos, dividem até o ar que respiramos se houver necessidade, cuidam para que o oxigênio não acabe, direcionam o retorno ao barco, auxiliam em todas as situações, seguindo o ‘checklist’ de todo o treino que fizemos para nos tornar mergulhadores.

Cuidando uns dos outros ficamos unidos e traduzimos a amizade, que dispensa legenda. E de duplas passamos a ter equipes cada vez mais integradas. Não demora para entendemos que somos todos velhos amigos, mesmo que não nos conheçamos. Este elo que une mergulhadores é maior que todos os outros já encontrados… Isso faz de nós mais que amigos, irmãos.

Mergulhe, inspire, respire, adapte-se. Dentro ou fora da água mudam apenas personagens, cardumes e cenários, mas a busca será sempre a mesma. Amor, respeito e contemplação para exercitar diferenças, superar medos, silenciar a mente e agradecer por mais um dia. Só não vale se afogar.

Claudia Queiroz é jornalista