por Claudia Queiroz

Minha infância foi marcada por muitas idas aos prontos socorros da cidade. Mas certa situação foi realmente especial. Eu havia quebrado o braço após brincar de me equilibrar em cima do muro da casa da minha avó…. Os ossos ficaram em formato de S. E lá se foram 40 dias de gesso. A reabilitação exigiu várias sessões de fisioterapia. Até aí, nada de anormal, a não ser que meu tratamento estava sendo conduzido por uma freira doce e brava do Hospital Nossa Sra. das Graças. E entre movimentos com as mãos em uma mesa cheia de farinha ou talco, não me lembro bem, ouvia a irmã pedir a “Deus abençoar quem estivesse naquela ambulância” sempre que uma delas chegava soando a sirene.

Eu tinha sete anos e aquela oração abreviada ficou gravada na minha história pessoal. Confesso que, desde então, toda vez que uma ambulância passou por mim, fiz o mesmo pedido em silêncio. Por alguém que não conheço, mas precisava de ajuda… Aquela sra. católica me deu um sinal de fé, mesmo que simbólico. Ela me ensinou, através de um exemplo prático e real, que nossa conexão com o sagrado começa quando percebemos as necessidades do outro.

Quando saímos do centro do mundo, tirando o foco do egoísmo crônico e tantas vezes agudo, questionamos as diferenças. Por que uns sofrem tanto? Fome, desigualdades sociais, miséria, vulnerabilidade e mais uma lista de coisas… Hoje eu consigo perceber que nos tornamos mais humanos quando compreendemos que essas distâncias, muitas vezes, nutrem sementes férteis de bondade em nossos corações.

Se posso fazer algo por um desconhecido é porque reconheço nele algo sagrado, afinal fomos todos feitos da mesma essência divina… E o que nos torna tão desiguais apesar de parecidos? Mistérios de Deus! Diferenças que também brotam sentimentos inspiradores. Afinal, quem precisaria evoluir se não tivesse um pingo de compaixão no peito ou uma grande inspiração para enfeitar a alma?

Nossas vidas seguem repletas de sinais. Sinos de igreja, sirene de polícia ou ambulância, todos implorando por socorro… Isso sem contar os sinais mudos que dependem de interpretação individual. Por isso é tão importante aprender a silenciar a mente e identificar o que move sua vida no simples dom de existir.

Se os talentos podem ser lapidados e melhoramos com a ajuda ou o atrapalho de alguém, somos o resultado das nossas conexões. Por isso, quando seu ritmo for quebrado, improvise. São estes momentos que nos ensinam a crescer. Depois de passar pela tormenta, você vai se orgulhar da nova versão em que se tornou. E o que isso tem a ver com o pedido de oração? A certeza de que nunca estaremos sozinhos e que soamos como sinais para alguém. Que esse alerta faça sentido em sua vida. Parafraseando o médico e palestrante de desenvolvimento humano, Jacyr Leal, que sempre diz: “Somos anjos uns dos outros”.

*Claudia Queiroz é jornalista.