Primeiro foram os ecochatos e na mesma onda mas bem depois, os bichos-grilo colocaram a “cabecinha de fora”. Por mais que sempre primem pelo radicalismo, o que não é bom, verdade seja dita que algum benefício deles sempre resulta, nem que seja o de parar para pensar. Vez ou outra uma bandeira emplaca, como foi o caso do Paraná no pioneirismo da regulamentação do uso de agrotóxicos.
Quando se cogitou, pela primeira vez e no Paraná dos anos 80, que a comercialização e o uso de agrotóxicos só poderiam ser feitas sob a supervisão de um profissional habilitado, os produtores rurais acharam que era piada de mau gosto. Se na época nem profissionais para prestar assistência técnica existiam em número suficiente, de onde haveria de vir os fiscais? Como se vê hoje, o que em um momento pareceu absurdo, resultou e segue sendo óbvio.
Vencida essa etapa, na qual os ecochatos tiveram relevante papel, era preciso arranjar outra bandeira. Surgiu daí a polêmica dos transgênicos e por mais que a ciência não fosse favorável ao ideologismo cego, quando se quer fazer uma sopa qualquer pé de galinha é suficiente. Pois bem, pelo mundo ignorante afora, a onda anti-transgenia se alastrou mais que erva daninha. Populações africanas morrendo de fome foram convencidas a não consumir alimentos transgênicos tal o fanatismo que se estabeleceu.
No Brasil, especialmente junto aos ideólogos e governantes de esquerda, a ira se estendeu a unidades de pesquisa destruindo experimentos e a propriedades rurais que foram invadidas por explorar cultivos transgênicos. No Paraná, o pouco astuto presidente da federação da agricultura uniu-se a um boquirroto governador para condenar com veemência a inovação. Ignorantes, os dois alegavam ora que era prejudicial à saúde humana, ora que os grandes consumidores europeus e orientais não consumiriam produtos transgênicos e, portanto, não haveria demanda.
O que se vê hoje é o que está aí, chineses como gafanhotos consumindo tudo que vêm pela frente e europeus buscando o que há de mais barato. Surge daí que os ecochatos passam a empunhar a bandeira dos alimentos orgânicos, convictos de que essa causa seria imbatível visto que de uma cajadada só mataria dois coelhos, quais sejam, os alimentos não poderiam ser transgênicos nem tampouco protegidos por agrotóxicos. Bingo. Só faltou combinar com os russos e com o dono da quitanda.
Alan Levinovitz, filósofo americano da Universidade James Madison, acaba de traçar paralelos entre as religiões e os modismos alimentares e alerta para o fato de que os seres humanos não são o que comem. Diz ele que “viver com medo de ser impuro é viver com medo de estar doente”. Quem disse que o milho da época de astecas e maias, cujo baixo rendimento agravado com a sociedade com carunchos, seria mais saudável que o fruto de sementes transgênicas com adequado manejo de pragas?
A opção maior por orgânicos é de pequeníssima parte da população, geralmente mais idosa e com renda que permite pagar mais caro por produtos supostamente mais saudáveis. É como o indivíduo que bebeu e fumou a vida inteira e agora, velhinho, acha que a culpa é do alambique e da tabacaria. E assim seguem os ecochatos, radicais como sempre, mas no caso dos orgânicos, românticos como nunca.

 

Joaquim Severino – Diretor Presidente da empresa Agrária Engenharia e Consultoria S/A e Professor de Política Agrícola da Universidade Federal do Paraná – 1973/2010, tem escrito mais de mil artigos nesta coluna desde 1992.