Mil bicicletas superpostas, mil caranguejos e dez milhões de sementes de girassol em porcelana, dezenas de ex-votos em madeira, uma imensa embarcação preta…Chega de Belo Horizonte, depois de estrear em São Paulo, a magnífica exposição Raiz, do artista chinês Ai Wewei.  E fica em Curitiba,  no Museu Oscar Niemeyer, até de julho. O título da mostra, com curadoria de Marcello Dantas,  remete a  um sentimento do artista: “A verdadeira tragédia humana é a da solidão –  sentir-se desgarrado num exílio permanente”. Uma imensa raiz e um barco de náufragos são ilustrativos. Ao todo são 40 obras (em São Paulo anunciou-se 70) e quinze vídeos.

Ai Weiwei, 61 anos, é um dos grandes nomes da arte contemporânea,  com notabilidade mundial principalmente por seu trabalho expressar genuíno engajamento político, social e humano. O pai, poeta, caiu em desgraça na época da Revolução Cultural, sendo obrigado a trabalhos forçados. Já o artista amargou prisão domiciliar, deixou a China em 2015 e tornou-se arauto da liberdade.

A mostra reúne peças históricas, do acervo do artista, outras feitas no Brasil, e frases na parede expressam opiniões do artista: “Tudo é arte. Tudo é política”, “Eu diria que não me tornei radical: Nasci radical”, “ A liberdade diz respeito ao nosso direito de questionar tudo”.

A instalação Bicicletas Forever, montada nos jardins do MON, onde pode ser vista gratuitamente, é uma de suas obras mundialmente conhecidas, as históricas.  O mesmo ocorre com as sementes de girassol pintadas na porcelana, que não chegam ao Brasil na quantidade original (dez milhões de unidades). Mas são estonteantes. Cada uma das peças foi pintada a mão por artesãos chineses. Feitas em 2010, elas expressam a produção em série.

Outro momento impactante revela o Weiwei iconoclasta: brinca com um dos mais caros ícones chineses, uma milenar urna da dinastia Han. Quebra o vaso e ousa criar uma versão em centenas de pecinhas de Lego.

No Brasil, lembra Marcello Dantas, Weiwei entrou em contato com a arte popular do Nordeste, assessorado pela designer Paula Dib. Dessa imersão nasceram obras inéditas: os provocativos ex-votos, série de couro com protestos gravados a fogo, sete esculturas de raízes e uma inacreditável obra a partir de um milenar pequizeiro de trinta metros de altura – o processo desse trabalho é apresentado em vídeo. Outro vídeo mostra outra loucura do artista, esta bem pessoal: submete-se ao gesso para moldar seu corpo nu e depois expô-lo, sangrando, ao lado de uma mulher em um velho colchão.

Em São Paulo, ele fez um trabalho com ceramistas: modelou Fruta do Conde, Ostra, Dendê e Abacaxi, cujas iniciais em inglês já tatuou no peito, em 1995, e que remetem a outra transgressão usual do artista – o popular dedo médio em riste.

O curador destaca uma peculiaridade da exposição em Curitiba: acontece no museu projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer, cuja obra é admirada por Weiwei. “Isso permite uma possibilidade de diálogo entre grandes gênios que trabalham em grande escala, o que torna a mostra uma luta de gigantes”, observou ao acompanhar a montagem no espaço apelidado por Olho. Para Dantas, há uma simbologia a ser notada também nesse ambiente: “Todo o trabalho de Ai Weiwei é sobre alterar a forma de olhar, valorizar detalhes, e sobre como o nosso ponto de vista pode mudar o significado das coisas”.

Visitação: 3 de maio a 28 de julho, no Museu Oscar Niemeyer. De terça a domingo, das 10 às 18h. Ingressos a 20 (inteira) e 10 reais. Quartas gratuitas