“Você foi o que de melhor me aconteceu neste ano”. Esqueci o ano em que ouvi essa declaração. Mas não me esqueci dela e nem de quem ouvi: do Carlinhos ou Cacá, assim conhecido entre os inúmeros amigos que amealhou em Curitiba, Londrina e também tem amigos que choram em Londres, Minas e Goiás. De clientes em seu personal salão de beleza fez amigos. Foi o que nos aconteceu. E em seu salão, onde trabalhava mesmo em feriado ou de noite, foi morto por um assassino covarde – Carlinhos era miúdo e seu tamanho combinava com o de seu mais fiel companheiro, o Billy, cobiçado cachorrinho da Rua das Flores, por onde os dois passeavam ao entardecer todos os dias.

Quem estava comigo nas semanas de moda pelo país, sabiam que eu tinha sempre um recuerdo para Carlinhos. Uma tanga de Copacabana, uma camiseta do Herchcovitch, uma sunga de Fortaleza. Ah, a sunga. Andei de loja em loja até achar uma bem florida. Mostrei aos clientes duas sungas para opção e ninguém escolheu a de hibisco (ou orquídeas, pode ser). Comprei a que foi rejeitada e o Carlinhos amou. Exibiu-se com ela pelo Leblon.

E assim fomos vivendo, de cabelos vermelhos, de carnaval no Largo da Ordem, de filmes, de novelas, do bar de seus amigos Urso, de clientela entre meus colegas, parentes e amigos. Carlinhos me apresentou pessoas queridas, amigas suas.

Até que aconteceu da presidenta Dilma sofrer um golpe e ele festejar nas redes sociais. Diante de seu delírio de alegria, retruquei algo mais ou menos assim: “Não deveria festejar quem, potencialmente, pode ser vítima de homofobia”. Eu antevia a escalada da extrema direita. Ele zangou-se comigo, não admitia ser essa vítima.

De 2016 para cá, nunca mais voltei ao salão e falei bem poucas vezes com Carlinhos, duas pelo watzp para atender seus pedidos de convites para shows, outras para dar parabéns pelo aniversário. Só uma vez nos esbarramos na calçada. Conversamos como conversam velhos amigos e com a clássica despedida de quem é cabeleireiro em horário integral: “Venha arrumar o cabelo quando quiser”. E a sua última mensagem no watzp diz: “Eu estou aqui para vc”. Foi no dia 21 de setembro, o que me faz lembrar de árvore e primavera. Ele gostava tanto de seu jardim na sacadinha do apartamento. Me deu pimentas certa vez. Plantei e sempre tenho pimenteiras no quintal, nunca tão assanhadas como as que dele.

Por que matar Carlinhos?

Trabalhei na Tribuna do Paraná – sou a segunda repórter policial mulher no país. Ler sobre a morte do Cacá me revolta duas vezes: o crime e como ele foi noticiado. Reportagem apressada, feita com declarações policiais inexatas e sem ouvir amigos da vítima, sem entrevistar suspeito, sem traçar um perfil da vítima torturada. Páira no ar um tom preconceituoso. E o velho chavão: a vítima, se não-convenional,  é culpada. Espero que a mãe de Carlinhos e seus irmãos, lá em Goinésia de Goiás, jamais leiam o jornal em que trabalhei por décadas.

Há um suspeito preso. Mas me faz lembrar de outro assassinato, o do escritor e poeta Wilson Bueno. O criminoso confesso foi absolvido. Uma firula processual deixou o assassino livre. E no caso de José Carlos Mota, só vamos chorar, tais quais essas gotas de chuvas que molham Curitiba neste sábado em que vamos rezar por ele?

Que a reportagem da Tribuna não perca esse caso de vista. Redima-se. Volte a falar com o delegado.      Quem matou um ser indefeso, covardemente,  vai matar outra vez. A homofobia está a merecer uma lei como a do feminicídio. A comunidade LGBT contabiliza: a cada 19 horas se mata um Carlinhos no Brasil. O jornalismo responsável pode ajudar na redução dessa triste estatística. E o cidadão consciente também – amanhã, 7 de outubro, é dia de eleições.