Dante Mendonça não a conheceu nos seus áureos dias, os anos 1950/60. 

Não sei se depois. 

A verdade é que Otília, uma das mais reverenciadas cafetinas da história da prostituição em Curitiba, teve casa concorridíssima. 

Ficava bem atrás do Colégio Santa Maria, na Rua Mal. Deodoro. Sua vizinha era a da Uda, Maria de Lourdes Silva, no registro civil, casa igualmente requisitadíssima. 

Pois ele vai escrever muito sobre elas e outras  colegas delas de atividade e o clima de    interesse e frissons sexuais que provocavam; sobretudo entre os jovens daqueles tempos              de práticas sexuais controladíssimas. Sem contar que o controle sobre a luxuria era obsessão generalizada.

CAFETINAS CURITIBANAS – 2 

Dante Mendonça: crônicas da cidade

O jornalista e escritor promete que “Maria Batalhão – memórias póstumas de uma senhora cafetina”, o livro que lançará até o final do ano, vai revirar esse capítulo que nenhum interesse provocou nos historiadores da terra. Dimensiona o papel de cafetinas famosas da cidade. 

 “A prostituição entre nós, aqui, foi passada por cima, não é interesse da história e dos historiadores, antropólogos e sociólogos. Isto embora prostitutas e suas casas tenham feito a alegria e a iniciação de milhares e milhares de cidadãos”, observa Dante Mendonça. Nem como atividade econômica despertou atenção de analistas. 
Para a universidade, então, o elemento prostituição e seus desdobramentos “não existem”. 

 “Maria Batalhão” será romance que mistura ficção e história, com depoimentos que, posso adiantar, são de fidelidade incontestável. 

CAFETINAS CURITIBANAS – 3 

Nesta semana, por exemplo, quando conversei com o ‘imortal’ da Academia Paranaense de Letras sobre seu livro, o escritor estava saindo para encontrar uma das melhores fontes que subsidiam o livro. Trata-se de “A”, o quase sessentão que, em seguida,  gravaria longa entrevista contando o que foram seus dias nos braços da cafetina Otília, uma relação de anos começada quando ele tinha 16 anos e ela uma trintona. Ele diz que, “literalmente, ela me estuprou”. No final do primeiro encontro, “affaire” que se prolongaria por dezenas de anos, Otília quis gratificar o iniciado por quem se dizia ‘apaixonada’. Abrindo um cofre, cheio de relógios caros, deixados no ‘prego’ por clientes sem dinheiro, escolheu um, de ouro maciço, e presenteou o jovem amante. 

 ‘A’ fala com carinho de Otília, cortesã que sublinhou os tempos de um Paraná marcado pelos rigores do conservadorismo e pelo dinheiro fácil que chegava, primeiro, com o café – via Norte do Paraná – e, depois, com as bonanças da soja e agrobusiness que começavam carreira. 

“MARIA BATALHÃO” COBRE UM SÉCULO 

O livro tem os componentes de curiosidade  para se tornar ‘bestseller’. Cobrirá um século de prostituição em Curitiba, de 1870 a 1970. Dois terços do livro estão prontos. 

Essa ficção histórica que Dante Mendonça trabalha resulta de uma grande intimidade que o jornalista e escritor tem com a cidade, embora seja catarinense de origem. Os trechos que poderiam ser apontados como de “maior fidelidade histórica”, estão cobertos pelos anos 1930/40. 

Há outras personagens igualmente interessantíssimas e suas casas que sintetizavam sonhos e quimeras. Uma delas, “ Maria Japonesa” (Maria de Lourdes Silva, na certidão de nascimento) foi dona de prostíbulo frequentadíssimo e bem mobiliado, na proximidades da saída de Paranaguá por rodovias. Perdurou até os anos 1970s. Foi dona de um bordel típico, hoje em extinção, como a maioria deles. Era comum ricos clientes ‘fecharem’ a casa para grandes orgias. O livro termina em Paris, enfocando “Maria Japonesa” a partir de depoimento de uma fonte de Dante que privou da intimidade da família da cafetina. 

“MARIA BATALHÃO” – 2 

“Maria Batalhão” existiu mesmo, era cafetina do século 19, e há rápida referência à existência dela em um livro de historiador, garante-me Dante. O nome viria do fato de ela morar perto de um batalhão do Exército, o que lhe garantiria clientela certa entre a soldadesca. 

Outra cuja existência é disputada por ficcionistas e eventuais resenhistas históricos (muito de leve) é a cafetina “Maria Sete Pelos”, que atendeu a vasta clientela durante a Guerra do Contestado, em meio ao puritanismo de messiânicos e ações de heróis guerreiros. Viveu naqueles dias – 1912 -, na área litigiosa entre PR e SC. Dante garante que um autor catarinense – “no momento não me ocorre o nome” registra a existência dessa cafetina “possivelmente peluda”. Mas, corre a informação de que se não atendia clientes – “até por ser peluda”, era uma grande gerente de bordel. E também com dotes de cortesã diferenciados na província. 

Outra de existência sob brumas, e muito mais levada à conta da ficção criada pelo povo – era a “Maria Bigoduda”. Mesmo assim, Dante vai a fundo ao examiná-la como possibilidade “fascinante”, procurando traduzir até sonhos eróticos de supostos clientes da mulher de nome nada estimulante. 

ANTIGO “JOHNSCHER” EM TEMPOS DE BORDEL 

Dante Mendonça está mesmo disposto a apostar no lado histórico das cafetinas e da prostituição curitibanas. Assim, dirá que o endereço do Hotel Johnscher – que foi sinônimo de requinte na Curitiba da maior parte do século 20, Rua Barão do Rio Branco – teria começado como bordel. 

Talvez o endereço do Johnscher, um prédio elegante, de estilo eclético, possa até ter sido residência, naqueles tempos de bordel, de prostitutas francesas. Para Dante, as francesas – como “Madame Bibelot”, que ficou famosa – teriam inaugurado a atividade então muito rendosa, hoje em decadência na sua forma clássica: perdeu espaço para as garotas de programa e para a incomensurável liberalidade sexual que dispensam as “casas de perdição”. 

O MITO E A HISTÓRIA 

O histórico e o mítico se revezam quando se fala em prostituição no Brasil. Histórica foi a presença das prostitutas de origem polonesas, judias que aportaram no Rio do começo do século 20. A vida delas no Mangue e em outros endereços está fartamente documentada. No Cemitério Israelita de Vila Rosaly, no Caju, ficam suas sepulturas. Todas faziam questão de manter a identidade judaica, até na morte. 

 O mítico fica por conta das mentes afetadas pelos encantos, promessas mistérios de uma atividade que não é a mais antiga do mundo. Em termos de tempo de militância, vem muito depois de caçadores e pescadores. 

O “CASTELINHO” ESPANTOU AS MONJAS 

Quem não se lembra, dentre os então jovens que cruzavam pela noite curitibana nos 50 e 60s do século 20, de outro bordel de respeitável porte, o “Castelinho”? Ficava no Ahú, próximo da então sede campestre da Urca. Na sua portaria, à guisa de leão de chácara, vigilante ficava um travesti. Cuidava das mulheres e atendia com fidalguia a clientela, impondo ordem, quando necessário. 

O negócio foi bem, os aluguéis da casa com aparência de um “pequeno castelo” eram pagos em dia. Até que, no final dos 1960s, o bordel fechou e foram-se os sonhos sobretudo da rapaziada e de senhores abonados. 

MONJAS – 2 

Em seguida, o endereço deu uma guinada de 360 graus: passou a abrigar um convento de freiras de clausura, originárias da Áustria, ligadas ao movimento católico ultraconservador “Opus Angelorum”. 

A freiras se deram bem com o inverno curitibano e com a religiosidade do povo.  Mas foram espantadas pelo estigma do bordel: todas as noites, antigos freqüentadores ou outros que conheciam os mistérios do “Castelinho” só ‘ por ouvir dizer’, batiam à porta. Insistiam em ser “atendidos”. 

As piedosas mulheres acabaram voltando cinco anos depois para a Europa, exaustas por noites mal dormidas no ato de espantar os candidatos ao pecado da carne. 

Esta historinha final é minha contribuição ao “Maria Batalhão” do inquieto grande cronista da cidade, Dante Mendonça. 

“BOM ALUNO” 

Francisco Simeão: cidadania

Para se ter uma idéia das preocupações com a escolha dos alunos que farão parte do programa “Bom Aluno”: hoje, na sede do projeto, Rodovia João Leopoldo Jacomel, 4675, em Piraquara, educadores, pedagogos e diretores de colégios públicos municipais e estaduais reúnem-se para ouvir palestra do educador Marcos Meier, sobre “Perfil do Jovem de Sucesso”. Presentes também os jovens que se candidam aos benefícios desse programa único (segundo me consta no país). A seleção anual começou.
O “Bom Alunos”, criado por dois empresários modelares como cidadãos – assim se mostram com essa ação -, Luiz Bonacim e Francisco Simeão, garante ensino de qualidade para alunos da baixa renda, ensino médio. O apoio continua na universidade, em cursos, de pós e até em estudos no exterior.
Todos estudantes do projeto têm direito a aulas de idiomas, apoio psicológico e pedagógico. Tudo absolutamente sem ônus para os beneficiados.

O BRILHO DE CÍCERO 

Vanete Soccol, coordenadora do Mestrado em Biotecnologia da Universidade Positivo, manda-me mensagem sobre a performance internacional do médico e professor Cícero Urban:”Nos orgulhamos do professor Cícero…(…) ele é merecedor de premiação específica da cidade de Curitiba e do Governo do Paraná”. 

NOVOS ACADÊMICOS 

Paulo Vítola: imortal

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Paulo Vítola, compositor, publicitário, redator, parte da memória do marketing político do Paraná, foi eleito para ocupar uma das cadeiras vagas da Academia Paranaense de Letras. 

A outra vaga foi para a antropóloga Maria Cecília Helm, professora sênior da UFPR,
conhecida por seus estudos sobre o mundo indígena do Sul.
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DO DIA: 

“A velha lei do olho por olho 
   fará um mundo de cegos”.
      Martin Luther King 

Esta coluna é publicada diariamente no jornal Indústria&Comércio.
 
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