A TAÇA, SEU HISTÓRICO NA MITOLOGIA, LENDAS E NA EVOLUÇÃO DO VINHO.

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Osvaldo Nascimento Júniors.:

Hoje vamos discorrer sobre uma das mais belas peças para se degustar vinho, mais decantada no mundo, A TAÇA, SEU HISTÓRICO NA MITOLOGIA, LENDAS E NA EVOLUÇÃO DO VINHO.

O Champagne,todo o mundo sabe, tem delírios, sonhos, histórias e como todo grande vinho, talvez devesse ser bebido de joelhos. Mas, neste mundo ímpio, muitos o bebem prosaicamente como um vinho qualquer, sem nenhuma cerimônia ou respeito. Recordemosque na Belle Époque, o período das maiores festas da sociedade nova-iorquina, no começo do século 20, muito bem descrito pelo grande escritor americano F.Scott Fitzgerald em seus romances, Suave é a Noite e O Grande Gatsby, aconselhava-se bebê-lo no sapato da mulher amada…

Aliás, vamos fazer uma apologia ao Champagne, merecedor de toda homenagem do mundo vínico. Não se sabe quem o inventou. Existem várias versões. A mais provável, é que uma levedura extraviada tenha provocado uma segunda fermentação acidental num vinho exportado para a Inglaterra. A mais linda, é que ele foi criado por Don Perignon, Abade de Haut-Villers, entre 1670 e 1715, que ao prová-lo teria pronunciado a frase imortal “Venham todos ver, estou bebendo estrelas. Desde então, por ter sido mais usado para seduzi-las. Champagne é o VINHO DO PECADO. Servido em todas as mesas, acompanha todos os pratos, desde que na outra taça, ou na outra borda, fiquem lábios da mulher amada. Champagne era a bebida de Tolouse Lautrec no Folies Bergere, Paris, e a guardiã da mesa de Santos de Dumont, No Maxim’s. Foi bebendo Champagne Cristal da Roederer, em garrafas de cristal da Boêmia, de fundo chato, especialmente fabricadas, que o Czar de todas as Rússias, esperou Lenine em 1917 em seu palácio, e o destino.

Uma das maneiras ortodoxas de bebê-lo é em taças de boca larga. Estas, porém, são poucos práticas, pois entornam facilmente, reduzem a espuma e perde rapidamente o gás “achatando” o Champagne, o que não acontece com a elegante flute, “flauta em francês” longa e de boca estreita, que permite um lento e longo borbulhar. Mas como tudo no mundo vínico, tem sua lenda, a dizer seu envolvimento na mitologia grega e romana, que nos deram os deuses Dionísio em Roma e Baco na Grécia, a lenda da taça convencional tem uma origem maravilhosa, divina mesmo. Essa taça teria tido a origem na mitologia grega, com Helena de Tróia: os deuses do Monte Olimpo procuravam o mais belo recipiente para beber o seu néctar. Apolo, encarregado da Tarefa, escolheu como a forma mais própria e sensual os seiosde Helena de Tróia, a mais bela mulher da época. Designou então Paris, filho de Príamo, rei de Tróia, para moldar a taça diretamente do modelo. Páris, protegido de Apolo e habilíssimo no trato de metais preciosos, executaram a ordem divina que até hoje influencia nossos hábitos. Realizou seu trabalho em uma esplanada com toda a nobreza grega como testemunha. Helena, belíssima, teria aparecido com o busto recoberto por um véu diáfano. O molde foi tomado em cera mole, sem o véu, e Paris confeccionou a taça em metais raros e preciosos sob a supervisão de Apolo. Seguiram-se libações e bebedeiras tão a gosto dos deuses gregos, originando a lenda do famoso rapto de Helena que ambos apaixonados, fugiram para Tróia, ocasionando a lendária Guerra de Tróia, em que após muitas lutas, os gregos enganaram a população troiana, e introduziram o Cavalo de Troia, cheio de soldados dentro, abrindo os portões à noite, para seu exército entrar e dizimar a população. Dessa taça teria surgido, séculos depois, a taça do Champagne. Como seria árida a história sem as lendas. Sem esta D. Pedro I não teria seus êxtases e repentes, nem Nunes Alvarez – o condestável da Casa de Aviz – a visão divina em que levava os portugueses à vitória em Valverde.

Como e até quando sobreviveu à tradição da taça através dos séculos, não se sabe ao certo. Não obstante, cem anos depois da invenção de Dom Perignon, a lenda reviveu na segunda metade do século XVIII (18) com Maria Antonieta. Renasceu não como lenda, mas como fato comprovado: a esposa de Luis XVI mandou confeccionar taças de porcelana moldadas em seus seios, o que fez voltar a moda de tomar vinho em taças. Também é pouco claro como seu uso se restringiu unicamente ao Champagne. Na realidade, a taça nunca foi apreciada pelos produtores nem pelos consumidores da bebida. Não é apropriada nem prática. Provavelmente seu fabricante teria decidido que um vinho diferente com toda essa áurea mereceria um copo diferente. O fato é que apenas há alguns poucos anos a taça de boca larga vem sendo preterida na França e na Inglaterra bem como aqui no Brasil em favor da flute, também descoberta por Don Perignon, para não deixar os gases se expandirem tão rápidos.

Como vimos o vinho nos traz belas histórias, tradições em todos estes séculos de dedicação por seus degustadores. Parafraseando os árabes, que chamavam aos seus livros de viagens de “livros de andar e ver” podemos entender os conhecimentos trazidos pelos séculos, ao mundo dos vinhos e, implícito na expressão, o conhecimento do que se descreve, revelando tudo aos seus leitores, num verdadeiro convite a esse mundo singular e maravilhoso do sangue das uvas. Aliás, queremos fazer menção aqui ao legado árabe ao mundo vínico, quase desconhecido, mas muito bem citado por Hugh Johnson, jornalista inglês, em sua belíssima obra sobre vinhos “ A História do Vinho”, que mostra a riqueza da cidade de Shiraz na Pérsia, o mais famoso centro produtor de vinho do mundo muçulmano, origem da uva do mesmo nome, trazida ao ocidente pelos cruzados após a libertação de Jerusalém para Bordeaux onde se desenvolveu produzindo vinhos maravilhosos e hoje por todo o mundo civilizado. Salienta também que após a proibição por Maomé da proibição do Arak e do Vinho os médicos árabes foram jogados em um grande dilema com a proibição deste grande medicamento. O grande Avicena, responsável pelo hospital de Bagdá, juntou muito do conhecimento dos antigos gregos a pertinentes observações próprias sobre o tratamento do vinho nas pessoas.

Se entregue a o prazer de celebrar a vida com uma taça de vinho, você merece este momento contido em séculos de história, amor e paixão.

AVOE. BRADO DE EVOCAÇÃO Á BACO.

Osvaldo Nascimento Juniors.:

O VINHO LEVADO A SERIO.

Advogado, Empresário, Sommelier, Enófilo, Colunista e Palestrante de Vinhos, estudando o mundo vínico há 20 anos, tem como objetivo reunir estudiosos e amantes da Enologia e difundir a cultura vitivinícola no país e no mundo, autor do livro sobre vinhos VINUM VITA EST – A HISTÓRIA VISTA PELO VINHO, sucesso de vendas em cursos e palestras, numa viagem cultural e didática ao mundo vínico.

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Artigo anteriorCharge 30-10-2018
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